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Projeto Volta ao Mundo de Bicicleta Pedalando Pela Paz
Expedição Carretera Austral - 27/12/2004 - 25/01/2005
Roteiro  -   Participantes  -  Grupo de discussão

Início da pedalada: 31/12/2004 – Final: 19/01/2005
Distância pedalada: 797 Km – Puerto Montt/La Junta e Cochrane/Puerto Chacabuco
Ferry boat: 30 minutos – Caleta La Arena/Caleta Puelche
Navio “transbordador”: 5 horas – Hornopiren/Caleta Gonzalo
Van: 585 Km, dois dias – La Junta/Coyhaique/Cochrane
Avião: 50 minutos – Balmaceda/Puerto Montt

  Participantes

  1. Almiro José Grings, 64 anos – Águas de Prata SP

  2. Fernando Rosa, 44 anos – Joinville SC

  3. Gustavo Bruno Bicalho Gonçalves, 27 anos – Belo Horizonte MG

  4. Nilson José do Livramento, 29 anos – Curitiba PR

  5. Ricardo Zimmermann, 35 anos – São Paulo SP

  6. Valdecir João Vieira, 60 anos – Curitiba PR

Introdução

 O relato que se segue refere-se a um período de quase um mês em que seis brasileiros desconhecidos rumaram para uma viagem ao Chile. A viagem foi feita de bicicleta pela Carretera Austral, na patagônia chilena, mas também por outros meios de transportes e dentro de cada um. Mais do que uma viagem ou uma aventura no sentido físico, é a experiência vivida em terras estrangeiras, nas terras inóspitas e belas da patagônia e nos terrenos delicados e sensíveis das relações humanas, o que fica registrado de forma mais intensa na memória dos que participaram da aventura. Se há uma peculiaridade nessa aventura que merece ser destacada é o fato dela ter sido realizada por um grupo de homens maduros e diferentes, que souberam respeitar suas diferenças em nome de um objetivo em comum. Para compreender o “espírito” dessa viagem é importante conhecer a história de nosso grupo e de como ele foi constituído.

Boa navegação.

Os autores: Almiro, Fernando, Gustavo, Nilson, Ricardo e Valdo

Preparação da expedição

Entre o sonho e a realização da viagem passaram-se vários meses. Os contatos foram feitos pela Internet através de listas de discussão sobre cicloturismo. Das nove pessoas interessadas, seis realizaram a viagem. Éramos quase todos desconhecidos. Criamos uma lista de discussão (http://br.groups.yahoo.com/group/Carretera_Austral) onde iniciamos uma intensa preparação com intercâmbios de experiências, telefonemas, e duas visitas.

Estávamos muito entusiasmados em participar desta grande aventura. Era uma aventura ao desconhecido. Quatro de nós, Almiro, Fernando, Nilson e Ricardo iam participar pela primeira vez de uma viagem de cicloturismo. O Gustavo já tinha uma pequena experiência no Vale do Jequitinhonha MG. O mais experiente era o Valdo que já tinha percorrido o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, além de ter pedalado por todo o Uruguai.

O Almiro, o “abuelito” do grupo, nem sequer tinha uma bicicleta. Quando decidiu participar da expedição, no mês de julho, começou um preparo intensivo numa academia. Nos primeiros três meses usou a bicicleta da filha para treinar. Para nossa surpresa, teve um desempenho extraordinário durante a expedição.

A sugestão era que cada um fizesse uma viagem de, pelo menos, 100 km num dia, com os alforjes carregados para sentir a dificuldade. Ninguém foi capaz de realizar a sugestão. Todos deixaram para se preparar durante a viagem. Como na primeira semana as etapas foram curtas, não houve problemas. No quarto dia de viagem, fizemos 66 km e nos últimos 20 km enfrentamos chuva, vento, frio e subidas fortes. O Gustavo arrastou-se durante os últimos quilômetros mas mesmo assim chegou sem problemas nas Termas del Amarillo para repor as energias.

Diz um provérbio popular que “O melhor da festa é esperar por ela”, só que desta vez o provérbio não funcionou. O melhor mesmo foi participar desta incrível aventura, com um grupo de pessoas desconhecidas, com idade média de 43 anos, onde se criou uma harmonia incrível. A coisa mais linda de toda a expedição foi a vivência e a convivência do grupo. Esta foi a verdadeira moldura que embelezou as magníficas paisagens que a natureza nos presenteou durante toda a viagem.

A Partida

27/12/2004

Curitiba - PR. O Valdo e o Nilson tinham combinado receber o Gustavo na rodoviária para fazer um passeio ciclístico de 40 km pelas ciclovias da cidade, enquanto esperavam pelo ônibus da Pluma que só deveria chegar à noite. Às 9:30h toca o telefone na casa do Valdo. Era o Nilson comunicando que tinha havido um acidente na Regis Bittencourt e que a estrada estava interditada. Os dois decidiram ir até a rodoviária, onde chegaram às 11 horas. Foram informados de que o ônibus só chegaria depois do meio dia. Resolveram esperar. Almoçaram e às 13:50 receberam a informação de que tinham acabado de liberar a estrada e que a previsão de chegada era para depois das 17 horas.

O Gustavo tinha amanhecido o dia com uma paralisação na Régis Bittencourt, que durou 8 horas, entre 6h e 14h. Ficou ansioso ante a possibilidade de perder o ônibus da Pluma. Os dois voltaram para casa a fim de fazer os últimos preparativos. A bicicleta do Valdo ficou muito pesada, pois além dos 20 quilos de bagagem teve que acrescentar mais 8 quilos de bananas passa e barras de cereais. O Nilson chegou às 17:45h. Meia hora mais tarde, depois de pousar para a foto da partida, iniciaram a pedalada até a rodoviária onde encontraram o Fernando que já tinha chegado de Joinville.

O Gustavo, que deveria ter chegado em Curitiba às 10:30h, só apareceu às 19h e o passeio turístico combinado com Valdo e Nilson não pôde ser realizado. Encontrou-se com o Fernando, Valdo e Nilson, que não o reconhecem de imediato. Juntou a bagagem à deles, formando um imenso volume no meio do caminho de vários passantes. Esperaram ansiosos pela chegada do ônibus da Pluma às 20, mas este também se atrasou. Às 22, já dentro do ônibus, o Gustavo, o Fernando e o Nilson conhecem o Almiro, o quinto integrante do grupo que vinha de Águas de Prata SP.

Saímos de Curitiba à 22:32h. Recebemos uma notícia nada boa. Devido ao atraso, só iríamos chegar em Santiago depois das 21 horas do dia 29. A nossa viagem para Puerto Montt estava marcada para 21:30h do mesmo dia. Era preciso armar uma estratégia para não perder a passagem de Santiago a Puerto Montt. Na primeira parada, em Sombrio, o Almiro telefonou para o genro pedindo que procurasse o telefone do Ricardo que ia viajar de avião no dia 29, para que ele, ao chegar em Santiago, resolvesse o problema da passagem.

 

29/12/2004

A viagem foi tranqüila, apesar da ansiedade para saber se o Ricardo tinha recebido o recado que passamos através do genro do Almiro.

Atravessamos os monótonos pampas Argentinos e chegamos à cordilheira dos Andes e Aduana Chilena. Nesse dia começou a haver interação maior entre todos os passageiros do ônibus. O Gustavo conheceu um chileno que já pedalou na Carreteira Austral e é esportista, profissional de Downhill; Ana Luiza, que é uma valente mochileira de Uberlândia e um brasileiro de Campinas que já conhecia uma parte do sul do Chile e também era cicloturista. No ônibus ia se formando um clima muito gostoso, com direito a música. Na medida em que as pessoas se familiarizavam com os objetivos das viagens uns dos outros, começavam a dar sugestões e a conversar de modo que todo o ônibus transformara-se em um grande grupo de amigos.

Ao chegar na Alfândega chilena fizemos todos os trâmites legais para dar a entrada no país que desbravaríamos pelos próximos 25 dias. O Gustavo declarou na inspeção sanitária que portava alimentos de origem animal e teve que abrir sua mala. Satisfeito, o funcionário chileno inspecionou com cuidado um queijo provolone, e o deixou passar, e um salaminho “tipo milano”, que foi confiscado, envenenado e descartado(*). Ainda na Alfândega, o Valdo telefonou para os Salesianos, em Santiago, e recebeu duas boas notícias. A primeira foi que o Ricardo tinha acabado de sair dos Salesianos e ia marcar a passagem para o dia 30 às 18 horas. A segunda foi que os Salesianos tinham arrumado alojamento par nós no colégio. Foi um grande alívio saber que tudo estava resolvido.

Chegamos na rodoviária de Santiago às 20:45h. O Ricardo, esboçando um largo sorriso, veio ao nosso encontro com as passagens na mão. O horário estava em aberto. Tínhamos 35 minutos para descarregar as bagagens, marcar as passagens para 21:20h, carregar as bagagens da rodoviária norte para a rodoviária sul. A distância não era grande, uns 200 metros, mas tínhamos muitos volumes. Iniciamos então a operação formiguinha. Enquanto um ficava cuidando das bagagens os outros transportavam os volumes. A primeira etapa foi até o guichê da Tur-Bus. A segunda foi atravessar a rua até a outra rodoviária. O pessoal estava tão animado que nem sentiu o cansaço. Na verdade até esquecemos que estávamos com fome. A última refeição tinha sido no ônibus às 15:30h, que serviu de merenda, almoço e jantar. O Ricardo já tinha conseguido pousada para nós nos Salesianos, mas preferimos ganhar um dia.

Para o Gustavo seria a quarta noite consecutiva no ônibus. O Ricardo estava descansado, pois tinha chegado de avião. Para os demais, era a terceira noite no ônibus. Detalhe: Ninguém tomou banho durante a viagem!


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(*) Nota do Gustavo: Há um rigoroso controle de entrada de produtos in natura para o Chile. No caso do salaminho, este possuía o carimbo do órgão de vigilância sanitária brasileiro e estava dentro de seu prazo de validade, o que me deixou um pouco inconformado com seu confisco. Em todo caso, não me sentia em condições de questionar a atitude do funcionário chileno.

30/12/2004

Chegamos em Puerto Montt às 11 horas. Colocamos as seis malas-bike em cima da calçada e, sob o olhar dos curiosos, começamos a montar as bicicletas. O primeiro a terminar de preparar a bicicleta foi o Nilson. A cena era no mínimo curiosa. Os que já tinham ido pedalando para a rodoviária, como o Valdo e o Nilson, não tiveram problemas. O Almiro tinha levado tanta coisa que dava a impressão que levava toda a mudança. O Gustavo foi montar os alforjes e percebeu que o bagageiro estava quebrado e por isso não pôde levar a sacola com a barraca e os demais apetrechos.

Como íamos nos hospedar no Colégio Salesiano resolvemos fazer de novo a operação formiguinha. Iríamos até o Colégio, descarregávamos as bicicletas e voltaríamos para ajudar o Almiro e o Gustavo. Para saber onde ficava o colégio, pedimos informação ao Sr. Franco Milton, que nos observava. Ele perguntou:

- Por que é que vocês vão ao Colégio Salesiano?

- Porque eu sou Salesiano, respondi.

- Eu tenho dois filhos que estudam lá. Quer que eu chame o meu filho para mostrar o caminho para vocês?

- Sim, se for possível.

O Sr. Franco telefonou ao filho e dentro de alguns minutos apareceu com uma bicicleta para nos acompanhar até o Colégio. Guardou a caixa do Almiro e a bagagem do Gustavo no escritório dele que fica na rodoviária e saímos em fila indiana. Para muitos era a primeira experiência de pedal coma bicicleta carregada. Pedalamos uma centena de metros e começamos a subir. Seguimos por uma rua muito movimentada e íamos pela “orilla esquierda”. Os carros passavam por nós tirando fininho. Depois de pedalar 3.200 metros chegamos ao Colégio.

Nesse dia ocupamos nossa mansão na “Alta Puerto Montt”, uma gigantesca casa de retiros na qual cada um de nós tinha seu quarto individual e muito espaço para arrumar as bicicletas, tomar banho e cozinhar. O dia foi de preparativos, desde a compra de equipamentos que não vieram do Brasil, o conserto do bagageiro traseiro do Gustavo, até uma alimentação reforçada, uma higiene cuidadosa e tempo para colocar todos os itens em ordem na bicicleta.

O primeiro a tomar banho frio foi o Nilson. A água quente só foi ligada às 15 h. Às 14:30 o Valdo apresentou-se ao diretor, Pe. Natale, que o recebeu muito bem.

O Gustavo e o Almiro foram até a rodoviária buscar o resto da bagagem e aproveitaram para fazer o câmbio dos dólares. Trocamos USD 1.650,00 em pesos chilenos ao câmbio de CLP$ 540 cada dólar. Cada um trocou 300, menos o Fernando, que trocou 150 porque ia fazer só uma parte da viagem.

Às 16:30 saímos para um passeio de bicicleta. O Fernando aproveitou para trocar os Travel Cheques e o Almiro comprou uma Havaiana falsa. Visitamos a feira e fomos até o famoso Mercado Angelmo para uma visita de reconhecimento. Compramos Salmão fresco para fazer o Sashimi e Salmão defumado. Que delícia poder comer salmão à vontade! Pagamos CLP$ 1.500 por quilo, menos de R$ 10,00.

O Fernando logo nos apresentou seus talentos culinários nos brindando com um Sashimi muito bem feito e uma aula sobre vinhos chilenos. Nilson também não desapontou servindo um arroz perfeito. Era um prenúncio de que fome não passaríamos e, emagrecer, só se fizéssemos o propósito. Ao final de quatro dias juntos já sedimentávamos nossas impressões uns sobre os outros, e nos aproximávamos muito, não só por ocupar a mesma casa, mas também por construirmos nesse dia o caixa comum e, cada vez mais estarmos com nossos tempos e espaços vinculados uns aos outros.

Depois do jantar repartimos a comida em 6 partes iguais para dividir o peso. O Valdo ficou sendo o caixa durante toda da viagem. Cada um recebeu CLP$ 5.000 para as pequenas despesas pessoais e mais CLP$ 150.000 para guardar. O Valdo ficou com o restante. A partir daquele momento só existia o caixa único. Formamos uma família de cicloturistas.

O Almiro estava um pouco cansado e depois de receber a quota de comida, foi dormir. Os demais puseram-se a preparar os alforjes e só foram dormir depois das duas da madrugada.

 

31/12/04 – Primeiro dia

Puerto Montt – Contao

MXS = 54,5 km/h
ODO = 59 km
DST = 59 km
TM = 4:24h
AVS = 13.3 km/h

 

Às sete horas em ponto o Ricardo passou batendo nas portas dos quartos. Era hora de levantar para iniciar a nossa grande aventura. A saída estava marcada para as oito horas. Como o Almiro tinha levantado às seis horas, já estava com a bicicleta pronta para a viagem. Tomamos café e às 8:20h fomos até a residência dos Salesianos entregar a chave e agradecer pela acolhida. Deixamos as mala-bikes e os supérfluos na garagem, para aliviar o peso. Depois de pousar para a foto oficial da Expedição Carretera Austral, iniciamos a nossa aventura.

Para o Valdo era mais uma viagem de cicloturismo, mas para o restante do grupo era a primeira. Todos estavam bastante ansiosos. Era o início de algo desconhecido. Muitas dificuldades teriam de ser vencidas durante a viagem. Era impossível prevê-las. Pedalamos três quilômetros e começou a chover. Colocamos os abrigos de chuva. Depois de alguns minutos a chuva parou. O início da Carretera Austral é asfaltado. Segundo o nosso mapa, seriam 45 km de asfalto, mas para nossa surpresa ao chegarmos no Km 23 acabou o asfalto. Entramos no clima da viagem que havíamos idealizado. Pesadas subidas começaram a aparecer enquanto nós contornávamos a baía. No Km 48 chegamos ao Ferry Boat para fazer a travessia da Caleta La Arena até a Caleta Puelche.

O termo “Caleta” é muito usado no Chile e corresponde mais ou menos à nossa Colônia de Pescadores.

Faltavam apenas 300 metros para chegar ao Ferry Boat quando o Ricardo foi contemplado com o primeiro furo no pneu. Falamos com o responsável do Ferry Boat e ele gentilmente esperou até o Ricardo chegar. Durante a travessia o Nilson, que é o nosso mecânico, trocou o pneu e aconselhou o Ricardo a livrar-se do famoso pneu Levorin, que ele chama de “levoruim”. No lugar deste foi colocado um pneu de marca melhor, com Kevlar, para garantir o resto da viagem.

A travessia foi rápida, apenas 30 minutos e foi grátis para nós e para as bicicletas.

Decidimos acampar no primeiro camping que encontrássemos. Pedalamos alguns quilômetros e encontramos um camping bastante simples na beira da praia. Uma senhora correu para nos atender. Fizemos sinal com os dedos perguntando o preço. CLP$ 5.000 por quadrado, disse ela. Resolvemos seguir adiante. Era o dia 31 de dezembro e decidimos pernoitar num residencial para comemorar a passagem de ano.

Pedalamos o primeiro dia por paisagens magníficas. O Gustavo e o Ricardo eram os mais pesados e sofriam mais na estrada. O Gustavo era o único do grupo que não tinha suspensão dianteira. Percebeu logo que este equipamento fazia falta no tipo de terreno que estávamos pedalando(*).

Às 16 horas chegamos em Contao. Apesar de ser o primeiro dia, alguns queriam continuar mais um pouco. Hospedamo-nos no Residencial Reloncavi, cuja proprietária chamava-se Luz Marina, por CLP$ 5.000 por pessoa, com direito a usar a cozinha, TV a cabo e muito conforto A proprietária parecia incomodada de ter-nos em sua casa, mas enfim, estávamos lá. Pouco tempo depois de instalados, muitos dos que queriam seguir viagem já estavam estirados em seus leitos, com cara de acabados. No calor e empolgação do primeiro dia alguns não perceberam o quanto já estavam cansados. Um sono “inexplicável” abateu-se sobre o Ricardo e o Almiro, e eles dormiram tarde à dentro.

Um pouco mais tarde o Chef Fernando encarregou-se de preparar a ceia para a passagem de ano e saiu com o Gustavo para comprar alguns gêneros. Foi uma linda confraternização com direito a vinho tinto, durazno (nectarina), ciruela (ameixa), cerejas e espumante. O prato principal foi uma sopa de lentilhas. Como nesta região não permitem ou não tem o costume de soltar fogos de artifício, procuramos na TV a cabo por um canal que estivesse televisionando a Festa da virada para ouvirmos os fogos que já estamos acostumados no Brasil. Acho que ninguém queria estar em um lugar diferente.

Fomos informados pelos Carabineros que o “transbordador” de Hornopiren para Caleta Gonzalo só ia iniciar os trabalhos no dia 2, domingo, às 16 horas.

O Gustavo aproveitou para escrever as primeiras impressões sobre o grupo.

Valdo: sem dúvida o nosso líder. Assume responsabilidade pelas decisões e tenta coordenar as ações do grupo.

Almiro: É o mais fechado, mas também o mais ativo e cheio de iniciativa.

Nilson: Nosso pedal mais forte. Animado, espontâneo e cheio de iniciativa, transmite confiança ao grupo com seu conhecimento de bicicletas.

Ricardo: Educado e muito solícito,é o “bom moço” da trupe.

Fernando: muito observador, passa a impressão de um homem sofisticado.

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(*) Nota do Gustavo: mais a diante vim a descobrir que em outros trechos a suspensão parecia um acessório dispensável, um peso a mais. Cheguei ao fim da expedição sem uma conclusão sobre a utilidade desse acessório.

01/01/2005 – Segundo dia

Contao – Hornopiren

MXS = 45,5 km/h
ODO = 106 km
DST = 47 km
TM  = 4:03 h
AVS = 11,5 km/h

 

O Valdo acordou com dor de cabeça. Ressaca? Quem sabe? Levantamos às 8:30h. Saímos do Residencial às 10:30h. A manhã estava bonita, com céu nublado. As nuvens sobre a montanha anunciavam chuva. Começamos a pedalar e os primeiros três quilômetros foram de muitas subidas, o que só aumentou a nossa convicção de que no dia anterior tínhamos parado na hora certa. Na maior parte das subidas era preciso empurrar a bicicleta.Uma garoa fina por alguns minutos antes de aparecer o sol que nos acompanhou até o anoitecer.

A viagem seguia tranqüila com as paradas técnicas de hora em hora para comer, beber e descansar. Em média, quinze minutos de parada. O grupo manteve-se unido. Quando os primeiros perdiam o contato visual com os demais, paravam até que todos estivessem juntos. Havia certo revezamento de posição. O Fernando, muito calmo e observador, ia contando as formiguinhas que encontrava pela estrada. O Almiro, com uma sobrecarga no guidão, ia balançando a bicicleta. Dava até um nervoso na gente só em olhar para o movimento da bicicleta. Como conseqüência do desequilibro, na descida ia a passo de tartaruga.

Nesse segundo dia, já começando a pedalar no interior, íamos entrando cada vez mais no clima de aventura. Ao longo do caminho várias pessoas passavam por nós em caminhonetes gritando palavras de encorajamento ou buzinando. Um carro parou para perguntar de onde éramos. Vimos paisagens muito bonitas e os primeiros de muitos picos nevados, mas também muitas pedreiras e áreas devastadas com árvores mortas. Nessa região havia termas e cabanas, o que indicava uma região muito voltada para a exploração do turismo.

Lá pelas três da tarde, Valdo e Gustavo estavam à frente do grupo. Ao perderem contato visual, pararam para esperar os demais. Todos chegaram, menos o Nilson. O Almiro logo falou:

- Não precisa se preocupar. O Nilson é atleta. Daqui a pouco ele passa correndo.

Esperamos alguns minutos e nada de o Nilson aparecer. Nós estávamos no topo de uma grande subida. O Valdo tirou os alforjes traseiros e a barraca e voltou, ladeira abaixo, para ver o que tinha acontecido. Depois da curva, avistou o Nilson que vinha pedalando devagar. Voltou. O Fernando caminhou até a curva e viu o Nilson empurrando a bicicleta. Todos ficaram curiosos em saber o que tinha acontecido. O Nilson contou que tinha tido uma queda espetacular. Ele era o último e na descida, uma sacola de comida que estava no guidão soltou-se e caiu na roda dianteira. Ele tentou agarrá-la e a roda dianteira entrou no cascalho. Deu um salto de vários metros e esborrachou-se no chão. Entortou o bagageiro da bicicleta e sofreu várias escoriações pelo corpo. Nada de muito grave, mas sofreu por vários dias. Este segundo dia de pedalada já serviu de advertência de que todo cuidado é pouco.

Faltava apenas um quilômetro para chegar a Hornopiren quando paramos para tirar uma foto do grupo. A vista era deslumbrante com os altos picos nevados espelhados num céu azul. Foi a última grande descida até a cidade.

A viagem foi só de 47 km, mas com inúmeras subidas. Grande parte da viagem foi feita a pé empurrando a bicicleta carregada morro acima. A paisagem era exuberante. Dezenas de riachos, rios e cachoeiras com água cristalina e gelada. A parada para apanhar água gelada era irresistível.

Hospedamo-nos num albergue bem na frente da Rampa onde atracava o transbordador, por CLP$ 3.500 por pessoa, sem café da manhã. O lugar era bom e a proprietária, dona Rosa, era um amor de pessoa. Não tinha comparação com a antipatia da dona Loli do Residencial Reloncavi.

Aproveitamos para descansar, visitar a cidade e encher os olhos coma belíssima paisagem do vulcão Hornopiren (forno de neve) e as lindas montanhas nevadas.

Ao ver o sol brilhando, a água convidativa e várias crianças nadando, fomos dar um mergulho na água gelada. O Almiro e o Ricardo não tiveram coragem de enfrentar a água fria.

O primeiro jantar do ano novo foi à base de ervilhas e pão, acompanhado por dois litros de vinho Gato Negro. Como pano de fundo tinha um lindo pôr-do-sol às 10 horas da noite.

Na hora de dormir, levamos as bicicletas para os quartos, subindo por uma escada estreita. Era mais seguro que elas dormissem conosco.

O jantar e o banho quente foram feitos na casa da dona Rosa, a uns 30 metros de distância do albergue. Na volta, trazíamos uma sacola de pão e outra com apetrechos de cozinha. A máquina fotográfica do Fernando estava nesta última. O Nilson levou as sacolas para dentro e deixou-as em cima da mesa, na entrada do albergue. O Fernando devia apanhá-las ao entrar, mas como ele e o Gustavo ficaram de papo até mais de meia noite, do lado de fora, para terminar de “degustar” o vinho, esqueceram de levar as sacolas para o quarto. De manhã tiveram a triste surpresa de ver que a máquina fotográfica e os apetrechos de cozinha tinham sumido.

No albergue onde ficamos em Hornopirén, o Gustavo teve uma experiência muito gratificante. A dona Rosa conversou muito com ele e contou de sua história recente, com muita dor e muitas perdas. Sentiu que a experiência humana é muito parecida e que mesmo um estrangeiro que escute nossos lamentos pode ajudar a aliviarmos nossas dores. Também conversou com Josefa, uma garotinha muito esperta de 5 anos. Apesar de estar viajando em grupo ele não queria perder a oportunidade de interagir com as pessoas dos lugares

02/01/2005 – Terceiro dia

Hornopiren – Caleta Gonzalo

Domingo. O Valdo e o Ricardo ficaram em casa para participar da Missa das 11 horas. Os demais saíram cedo para uma pedalada pelo Parque Nacional Hornopiren. Saíram às 8 horas. Às dez horas começou um forte temporal. O Fernando começou a sentir câimbras e preferiu voltar. Estava chateado com a perda da máquina fotográfica. Ao voltar da Missa Valdo inteirou o Ricardo sobre o roubo da máquina do Fernando, vindo a saber que ele, Ricardo, ao subir para o quarto à noite, viu a máquina sobre a mesa e guardou-a consigo por precaução.

Ao chegar no albergue encontraram o Fernando em baixo da coberta. Estava com frio e aborrecido. Comentaram o roubo da máquina e disseram que iriam fazer uma vaquinha para comprar uma nova para ele. O Ricardo trouxe a máquina e perguntou se uma como aquela seria suficiente. O Fernando reconheceu a máquina e abriu um sorriso desse tamanho, daquele que a boca vai até a orelha. Acabou-se o frio. Ainda bem que foi só um susto.

Os outros três, Almiro, Gustavo e Nilson, enfrentaram o temporal. Erraram a estrada e ao invés de entrar no parque, pedalaram dentro do parque por uma estrada marginal à baía. Na ida, pedalaram 20 km, boa parte debaixo de muita chuva e frio, na expectativa de alcançar a entrada do parque. Em um certo momento o Nilson entrou num abrigo e os outros dois passaram sem vê-lo. Preocupados e acreditando que o Nilson estaria pedalando alguns kilômetros à frente, os dois pararam e esperaram que ele voltasse. Depois de esperam por uns vinte minutos e já preocupados com o horário, resolveram voltar e deixar o Nilson entregue à sua própria sorte. Chegaram na cidade preocupados, bolando estratégias para apanhar um táxi e ir à procura do Nilson. Qual não foi a surpresa dos dois ao chegar no albergue e ver o Nilson já de banho tomado e colocando suas roupas para secar. Ele já estava em casa há mais de meia hora e ao desencontrar-se dos dois tomou a decisão de voltar só. Ele tinha quebrado a regra de nunca sair da visual dos colegas. Não foi fácil, durante toda a viagem fazer cumprir esta regra. Mas ela é muito importante para manter a integridade do grupo. Somente na última semana conseguimos pedalar sempre juntos.

O Gustavo, que gosta de interagir com as pessoas, conheceu um casal de chilenos que passeava na cidade. Ofereceu-se para tirar fotos e logo ficaram amigos, conversando sobre seus países e suas vidas. Foi recebido de uma forma muito calorosa.

Nesse dia pegaríamos o “transbordador” e, vendo as pessoas que se agrupavam em frente à nossa pousada para pegar o barco pudemos, pela primeira vez, sentir o pulsar da carreteira como um lugar que atrai aventureiros de todo o mundo. Na fila estavam brasileiros, suíços, alemães e pessoas de outras nacionalidades que tivemos a oportunidade de conhecer. Uma caminhonete levava mais de 20 bicicletas provavelmente para algum passeio contratado e com carro de apoio. Outras três bicicletas que estavam na fila eram de três suíços que estavam fazendo o mesmo que nós: viajando pela Carretera Austral de bicicleta.

O “transbordador” que faz a travessia de Hornopiren até a Caleta Gonzalo devia sair às 16 horas. Como era o primeiro dia atrasou e só saiu às 21 horas. Ainda tivemos 25 minutos de luz até ver um inesquecível pôr-do-sol, como uma bola de fogo apagando-se no mar. As algas fluorescentes pareciam reflexos das estrelas do céu no mar. Sentimos o vento frio do mar, conversamos com gente do Brasil, do Chile, da Suíça e da Alemanha. A vida é uma viagem.

A viagem foi tranqüila. Chegamos às duas da manhã. A passagem é cara. CLP$ 9.000 por pessoa mais CLP$ 6.000 por bicicleta. Conseguimos acomodar as seis bicicletas em cima de uma caminhonete e economizados CLP$ 36.000, algo assim como R$ 170,00. Nada mal!

Chegamos à Caleta Gonzalo às 2h da madrugada. Arrumamos nossos alforjes, empurramos nossas bicicletas por cima das pinguelas até nos metermos em um camping e armar nossas barracas perto de outras duas de pessoas que foram acordadas por nós e não gostaram nada disso. Quando acabamos de montar as barracas já passava das 4 horas da manhã. Todas as barracas estavam prontas e a barraca do Almiro ainda estava toda enrolada.

Ele pediu ajuda para o Fernando. Com a ajuda de lanternas, o Fernando descobriu que ao invés de encaixar as varetas de alumínio nos suportes, o Almiro tinha enterrado as quatro pontas no chão. Mais uns dez minutos e finalmente a barraca ficou pronta. Dormimos sem entender exatamente onde estávamos, tal era o cansaço, o frio e a escuridão.

No dia seguinte vimos que estávamos em um lugar lindíssimo! Reconhecemos a pinguela que passáramos à noite: ela tinha 15 mts de altura e passava sobre uma bela corredeira. Que adrenalina foi passar por ela à noite, sem enxergar nada, somente com o barulho das águas! Pagamos CLP$ 1.500 por pessoa pelo acampamento no Parque Pumalin.

03/01/2005 – Quarto dia

Caleta Gonzalo – Lago Blanco

MXS = 41 km/h

ODO = 133 km

DST = 27 km

TM  = 2:35 h

AVS = 10,1 km/h

 

Levantamos às 9h sendo que nossa saída estava marcada para as 10 horas. Logo já eram quase 11 horas e o pessoal ainda estava se enrolando... A distância a ser percorrida era de 60 km. O nível de dificuldade era alto. Muitas subidas e pedras soltas. Iríamos chegar em Chaitén por volta das 21 horas. Pusemos em votação para saber se o grupo estava disposto a enfrentar o desafio ou se preferia passar o dia ali e seguir no dia seguinte bem cedo. A maioria decidiu ficar e fazer as trilhas.

Pedimos informação e soubemos que havia mais três camping antes de Chaitén a 10, 16 e 25 km. Tudo ficou mais fácil e saímos sem pressa. A viagem por este trecho da Carretera Austral é simplesmente maravilhosa. O som das cachoeiras acompanha sempre o viajante. Cada paisagem nova é mais bonita que a anterior. Aos 16 km nos deparamos com uma cachoeira de uma beleza indescritível. Era a entrada para o primeiro camping que fica na beira de um lago, em cima da montanha. Deixamos as bicicletas em cima da ponte. O Almiro ficou na ponte e nós seguimos o “sendero” de 10 minutos para chegar perto da cachoeira. Era o mesmo “sendero” que levava ao camping por uma linda escadaria de madeira pelo meio da floresta. Era preciso caminhar 2:40h para chegar até o camping na beira do lago. Infelizmente não pudemos fazer esta trilha.

O trecho foi muito variado com grandes subidas, pedras soltas e cascalho firme. Numa das poucas vezes que o Almiro viajou na frente, foi numa grande descida com pedra solta. Quando nos aproximamos, depois da curva, lá estava ele se levantando. Caiu, rolou pelo chão e não se machucou.

Paramos várias vezes para fotografar e contemplar as belezas naturais. No quilômetro 25 encontramos um camping na beira do Lago Blanco, num desvio da estrada principal. Estava deserto, mas pronto para recebe os turistas. Dispunha dois banheiros muito bem asseados com chuveiro e tudo o mais. Escolhemos uma cabana na beira do lago, bem ao lado de um córrego de águas cristalinas. O lago é rodeado de altas montanhas. Ainda se podia ver um filete de neve no topo da montanha.

Duas barracas foram montadas ao lado do banheiro, na beira da estrada. O Almiro montou a dele na beira do lago. O Ricardo e Valdo montaram as barracas dentro da cabana, depois do jantar que foi servido às 18 horas.

O Nilson fez a revisão de todas as bicicletas. Trocou as sapatas de freio da bicicleta do Almiro. Já a do Valdo estava com um raio quebrado na roda traseira mas não pôde ser trocado por falta do sacador de catraca. Às 19 horas, o Almiro foi dormir, alegando que não tinha feito a sesta. Às 21 horas o Ricardo apagou. O sol brilhava no horizonte. A temperatura caiu e aos poucos terminou a jornada.

Ao anoitecer recebemos a visita do funcionário do Parque Pumalin, que fazia a ronda. Conforme esperávamos, pagamos os CLP$ 1.500 por pessoa para utilizar o acampamento(*).

 

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(*) Desde Caleta Gonzalo estávamos pedalando dentro do Parque Pumalin, um parque de propriedade do americano Douglas Tompkins (http://www.parquepumalin.cl).  Os dois campings que utilizamos eram padronizados e muito bem cuidados, mas privados e relativamente caros, uma vez que tínhamos a intenção de praticar o camping selvagem.

04/01/2005 – Quinto dia

Lago Blanco – Termas del Amarillo

MXS = 42 km/h

ODO = 199 km

DST = 66 km

TM  = 5:09 h

AVS = 12,8 km/h

 

Levantamos às 5:30h para fazer uma viagem com calma, visto o trecho ser de dificuldade média. Na verdade foi de grande dificuldade para o Gustavo, principalmente depois dos 50 km pedalados.

Às 7:30 iniciamos mais uma linda etapa. A bicicleta do Valdo tinha quebrado um raio no primeiro dia. Na hora da revisão o Nilson tinha esquecido de levar a chave de catraca. Teríamos que resolver o problema em Chaitén. Iniciamos a viagem que deveria ser de 66 km e logo no início o Gustavo começou a reclamar do câmbio dianteiro. Depois do ajuste não conseguia mudar as marchas. Na primeira parada o Nilson fez mais uma regulagem. Melhorou um pouco. Deixamos para resolver o problema em Chaitén.

Pedalamos 20 km e furou o pneu traseiro do Gustavo. Mais adiante, numa descida com pedras soltas, o Ricardo capotou. A bicicleta ficou no meio da estrada e ele foi parar na beira do mato. Tirei a máquina fotográfica para documentar o ocorrido. O Almiro chegou dando risadas. O Ricardo também ria e esperava que o Valdo tirasse a foto. O Almiro parou e não conseguiu tirar o pé do clip(*) e empacotou. Foi o primeiro a ser fotografado ao vivo e a cores durante a queda.

A viagem prosseguiu tranqüila. Chegamos em Chaitén às 11:15h. A primeira coisa que fizemos foi procurar uma oficina de bicicleta e um lugar de acesso a Internet para descarregar as fotos digitais. Ao chegarmos na oficina vimos uma cena curiosa. Um senhor bastante jovem, de terno e gravata na porta da oficina. Perguntamos pelo mecânico e ele apontou para o próprio peito e disse:

- Soy yo!

Como estranhamos ver um mecânico nestes trajes, ele explicou que era funcionário público e dono da oficina. Ele pediu que voltássemos às 13 horas que ele ia trocar o raio.

Passamos no centro turístico para pedir informações. Fomos em três agências navais e encontramos um “Catamaram” da Aysen Express que ia sair de Puerto Chacabuco no dia 19 com destino a Puerto Montt. Compramos as passagens de volta por CLP$ 40.000 cada, sendo que os dois “abuelitos” Almiro e Valdo tiveram 30% de desconto e pagaram apenas CLP$ 28.000.

O Ricardo e o Gustavo liberaram a memória das máquinas digitais. Fomos almoçar. Comemos um salmão que é de fazer inveja a muita gente. O Gustavo comeu um prato típico à base de mariscos e muitas outras carnes que parecia um banquete, o Curanto. O almoço foi acompanhado de vinho e refrigerante que lá é conhecido como “bebida”. Pagamos CLP$ 21.000 por seis refeições.

Depois do almoço o Valdo voltou com sua bicicleta à oficina, e foi muito bem atendido. Além de aprender os nomes de várias peças de bicicleta em espanhol, descobriu que passam pela cidade cerca de 20 cicloturistas de todas as partes do mundo durante essa época do ano. Enquanto conversava, o restante do grupo sofria na avenida costaneira, pois chovia forte e fazia muito frio, até que conseguiram se refugiar no escritório de informações turísticas. Com a bicicleta do Valdo pronta, fizemos compra de comida e iniciamos a pedalada de 26 km até as Termas del Amarillo, em baixo de chuva. Foi durante este último trecho de subida suave que o Gustavo começou a sentir dificuldades. Quando terminou o asfalto, subimos 4,5 km. O Gustavo chegou às Termas literalmente se arrastando. A chuva era fria. Estávamos todos molhados e com frio, mas havia uma piscina de águas termais nos esperando. Quando entramos na água, parecia que estivesse fervendo, tal foi o choque térmico. O Nilson comentou:

- Em Hornopiren entrei na água gelada e depois de alguns minutos parecia que a água estava quente. Aqui é o contrário: depois de alguns minutos parece que a água esfria.

O Valdo e o Gustavo aproveitaram para fazer um banho de lama. Era uma piscina com uns 30 cm de água. No fundo havia areia preta e muito quente. A chuva fria continuava a castigar. Bastava um minuto sentado na beira da piscina para receber uma lufada de vento frio nas costas. Saímos da piscina às 21:45h Era hora de enfrentar o frio. Montamos as barracas duas a duas, dentro das cabanas. Tivemos que fazer uma proteção com o plástico para evitar o vento forte e a chuva que castigou a noite inteira.

Um jantar a base de pão encerrou o dia.


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(*) É importante ressaltar que a utilização dos clips no lugar dos pedais, requer um período de adaptação, antes de partir para uma viajem longa, pois altera consideravelmente a posição dos pés e mexe com as articulações das pernas. Também há a necessidade de regular o posicionamento dos alforjes trazeiros, para que não fiquem raspando nos calcanhares.

05/01/2005 – Sexto dia

Termas del Amarillo – Puerto Cárdenas

MXS = 36,5 km/h

ODO = 223 km

DST = 24 km

TM  = 1:47h

AVS = 13,8 km/h

 

A noite mais fria até agora. Embora estivéssemos com as barracas montadas dentro de cabanas, o vento castigava. O frio incomodava. O Valdo, o Nilson e o Ricardo sofreram de modo especial pois estavam com o saco de dormir úmido. Para o Nilson era a segunda noite que não dormia. Na verdade, todos reclamaram do frio e percebemos que estávamos com muita roupa molhada(*) devido às várias horas que passamos debaixo da chuva do dia anterior. Tínhamos marcado para levantar às sete horas. Ninguém teve coragem de se mexer. Perto das oito ouviu-se um forte trovão. Parece que foi para espalhar as nuvens carregadas que estavam em cima de nós. O sol apareceu timidamente no meio de uma clareira de nuvens. Todos pularam da “cama” (ou seria do chão?).

Na hora do café o Valdo tomava uma caneca de café e uma caneca de chá. Não chegou ao fim do chá. Sua pressão caiu e ele desmaiou. Foram apenas alguns segundos,mas o suficiente para pesar ainda mais o clima no grupo. Nesse momento discutia-se entre algumas pessoas do grupo que talvez estivéssemos correndo muito mais riscos do que esperávamos, e para os quais não estávamos preparados. Questionamos nossa falta de roupa, nossa saúde e até nossa disposição em continuar nessas condições. O Nilson colocou para o grupo o problema de seu saco de dormir. O Almiro falou da possibilidade de pegarmos um carro alugado para voltar. Enquanto isso o Valdo estava na barraca tirando mais uma soneca. Ele acordou melhor de saúde e o grupo, ainda um pouco abatido, voltou a mobilizar-se para a saída.

Compramos pão a 100 pesos cada um. Pagamos CLP$ 3.000 pelo uso da cabana e CLP$ 12.000 pelo uso da piscina. Uma choradinha sempre ajuda a reduzir o alto preço que se paga no Chile. Um americano que estava numa barraca ao lado veio pela Argentina. Disse ele que na Argentina se gasta 1/3 do que se gasta no Chile.

O Fernando foi contemplado com um furo no pneu. Descobriu o furo quando foi preparar a bicicleta para deixar as termas.

Fizemos um lanche e deixamos as Termas às 11:50h com destino a Puerto Cárdenas onde chegamos às 14 horas. A metade da viagem foi em baixo de chuva. Para nossa sorte, o vento forte era a favor. Depois de uma hora paramos em cima de uma ponte para o descanso e a reposição de energias. O visual do rio caudaloso comas montanhas nevadas ao fundo era simplesmente encantadora. Como estávamos parados, o vento castigava muito, por isso não conseguimos ficar muito tempo.

Um pouco antes de Puerto Cárdenas, encontramos a Hospedagem Lulu, ao custo de CLP$ 6.000, com café da manhã. Ela disponibilizou um galpão para guardar as bicicletas e na casa um fogão a lenha que servia de estufa para secar as roupas molhadas do dia anterior. Toda a casa ficava aquecida. No lado de fora estava um frio de doer até os ossos. O Fernando, usando a sua criatividade, aproveitou um resto de ervilhas e preparou uma sopa muito gostosa. Enquanto ele preparava a comida, o Valdo escrevia e o Almiro dormia. Depois do almoço o Gustavo, o Almiro e o Fernando desapareceram em baixo do cobertor. O Ricardo aproveitou para atualizar o diário.


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(*) Mesmo colocando capas de chuva para proteger os alforjes, expostos a períodos prolongados de chuva, começam a infiltrar água, a recomendação é utilizar sacolas plásticas confiáveis, envolvendo todos os item que compõem os alforjes.

06/01/2005 – Sétimo dia

Puerto Cárdenas –Ventisqueiro Yelcho

MXS = 40,5 km/h

ODO = 239 km

DST = 16 km

TM  = 1:14h

AVS = 12,2 km/h

 

Uma noite de sono reparador. Para alguns parecia um hotel de 5 estrelas. A dona Lulu superou todas as expectativas. Cobrou caro pelo pão (CLP$ 1.000 cada pão caseiro) mas em compensação nos ofereceu pão à tarde e à noite. O café da manhã foi simplesmente maravilhoso: pão, queijo caseiro, omelete, manteiga, mousse e mel de abelha.

Impressionante como é bom ser cativado por uma pessoa. A dona Lulu serviu de referência para todo o grupo durante o resto da viagem pelo carinho com que nos tratou. Através de pequenos gestos dela, como insistir que secássemos as roupas nos varais em cima do fogão e oferecer-nos guloseimas enquanto estávamos por perto, ela conseguiu nos cativar profundamente. Ela parecia feliz com a nossa presença dentro de casa e fazia de tudo para nos deixar à vontade. Os residenciais têm este aspecto peculiar: os hóspedes se misturam com a família e dividem o mesmo teto, o que por vezes pode ser muito gratificante. Mas nem todos os residenciais gozam de simpatia: mais adiante iríamos encontrar a “Miss Simpatia”, como ficou conhecida por nós. Uma senhora que pediu para ser antipática e abusou. Nem tudo é perfeito.

Depois de tudo pronto para a partida, ouvimos o grito de alerta do Gustavo: o pneu dianteiro estava furado. Ajudamo-lo a tirar os alforjes dianteiros e o Nilson trocou a câmara. O Gustavo usou a câmara que tinha tirado dois dias antes, que, segundo o Nilson, estava com problema na válvula. Tudo pronto para a partida.

Algumas pessoas deram a partida e 300 metros depois da curva pararam para esperar os retardatários. Esperaram, esperaram e nada dos retardatários aparecerem. Depois de alguns minutos apareceu o Ricardo dizendo que a câmara que o Gustavo tinha trocado estava furada. Começou a chover e nós voltamos para o galpão. Com as duas trocas de câmaras tivemos um atraso de 50 minutos. Nada importante uma vez que a etapa seria muito curta.

A menos de dois quilômetros do destino, paramos para fazer uma trilha de 300 metros até uma fonte de água mineral. O Almiro e o Nilson não tiveram a coragem de enfrentar a trilha. Os demais seguiram em frente. O piso da trilha era feira de tábuas e ela estava um pouco abandonada devido à falta de uso, pois estávamos no início da temporada. Faltavam apenas 30 metros para chegar na fonte e a trilha piorou. O Fernando que ia na frente, seguido pelo Ricardo, resolveu voltar. O Ricardo também fez meia volta. O Valdo tomou a dianteira e depois de alguns metros avistou a fonte. Gritou dizendo que tinha chegado. O Gustavo que vinha atrás conseguiu convencer os dois desistentes a seguirem adiante. 

A água mineral tinha um sabor forte de ferro. A nascente era protegida por um cercado de madeira. Era tão forte a presença do ferro que as paredes de madeira e o laguinho que se formava mais abaixo eram de cor alaranjada.

Mais dois quilômetros de pedalada, chegamos na entrada do Ventisqueiro Yelcho (glacial), onde existe um camping rústico. Pagamos CLP$ 1.500 por pessoa para acampar e visitar os glaciais.

As bicicletas foram guardadas dentro de uma grande cabana, onde passaríamos a noite, e logo iniciamos a trilha de duas horas. Em certo trecho da trilha, paramos para tirar uma foto, com o Ventisqueiro como plano de fundo, o Ricardo se propôs a tirá-la, ele se posicionou e ao tentar pegar o melhor ângulo de todos, foi indo para trás, e sem perceber, tropeçou em um galho e acabou levando o maior tombo, que quase rolou ribanceira abaixo se o Valdo não tivesse lhe segurado a mão. No caminho passaram por nós algumas pessoas de várias partes do mundo. Uma, que parecia americana, disse que a trilha estava péssima e não valia o sacrifício de vencê-la, uma vez que estava nublado e o ventisqueiro encontrava-se coberto de nuvens. Ao ignorarmos seus conselhos e seguir a trilha, não pudemos concordar com ela. O Ventisqueiro Yelcho é realmente imponente, uma paisagem de tirar o fôlego. Chegamos ao fim da trilha depois de avistar 25 placas numeradas, colocadas ao longo da trilha para informar que estávamos na direção certa e quanto ainda faltava para chegar. Nesse momento, metade do grupo já estava cansado e satisfeito, e resolveu voltar. Valdo, Nilson e Gustavo seguiram adiante. Depois de 150 metros encontraram os primeiros blocos de gelo. Os três atravessaram o rio gelado e seguiram em direção ao glacial Quando se aproximaram o sol começou a brilhar nos glaciais promovendo uma visão realmente de tirar o fôlego. Chegaram a uns 400 metros de onde começa a formar o degelo.

Nessa caminhada o Nilson saltou na frente, como uma lebre, por cima das pedras. O Gustavo seguiu pela margem esquerda do rio e não conseguiu ir mais adiante. Ao voltar, escorregou e ficou pendurado numa grande folha. Por pouco não mergulhou na água gelada. O Valdo que estava na outra margem do rio, voltou para acompanhá-lo. O Nilson continuou na frente pulando por cima das pedras. Quando chegamos perto do glacial o Nilson já tinha voltado. Estava assustado !?!. Escorregou sozinho e quase caiu numa fenda da rocha. Nós seguimos adiante para tirar umas fotos. Somente depois de muita insistência, conseguimos convencer o Nilson a se aproximar. Mais uma vez alguém tinha quebrado a regra de sempre manter o visual. Voltamos.

Um fogo aceso no centro da cabana nos aguardava. O Fernando preparou uma panela de miojo acompanhada de pão caseiro da dona Lulu. Que delícia!

Para evitar o frio e a chuva, as barracas não foram armadas nessa noite, optando por agrupar os sacos de dormir em um lugar no fundo da cabana. Como o espaço era pequeno todos dormiram um ao lado do outro, com pouca chance de se movimentar. Cada nova experiência tem seus lados divertidos...

07/01/2005 – Oitavo dia

Ventisqueiro Yelcho – La Junta

MXS = 55,5 km/h

ODO = 329 km

DST = 90 km

TM  = 7:18h

AVS =- 12,2 km/h

 

O Almiro deu CLP$ 3.000 para o dono da camping comprar dois litros de vinho em Chaitén, para fazer o bota fora do Fernando. O vinho deveria chegar às 21 horas, mas só chegou as 23:15h. Enquanto esperávamos, o Sr. Luis, um chileno que estava acampado com a família, nos brindou com duas ótimas garrafas de vinho. Já passava das 22:30h quando fomos dormir. Eram seis sacos de dormir espremidos, um ao lado do outro. Quando alguém se virava para aliviar o desconforto do chão duro de madeira, os dois vizinhos também tinham que se ajustar. Apesar do frio intenso – estávamos a menos de três quilômetros dos glaciais – a noite foi tranqüila. Somente o Nilson reclamou de frio porque estava com um saco de dormir impróprio e também porque levou um tapa na cara quando o Almiro foi se virar durante a noite. O Fernando, que estava encostado na parede, reclamou de falta de espaço. Estes pequenos incidentes dão um colorido todo especial à aventura.

No meio da cabana havia uma grande fogueira que serviu para secar a roupa. O problema foi que o cheiro da fumaça impregnou toda a roupa e que perdurou por vários dias.

O café da manhã foi reforçado com Cereais Grings, a alimentação natural e equilibrada de nossa trupe foi fruto de uma operação de logística em que cada um deveria levar para a expedição o que bem entendesse. Podemos dizer que assim tivemos uma dieta bastante saborosa, nutritiva e calórica.

Pela primeira e única vez, iniciamos a pedalada em rumo oposto a um companheiro, o Fernando, que rumava de volta a Chaitén e a Joinville. Tiramos fotos e nos despedimos daquele que tinha nos cativado com sua disposição, seu tempero, seu temperamento e seus comentários sobre tantos detalhes que passavam desapercebidos aos olhos de alguns de nós.

Nesse dia sabíamos que nos primeiros 9 quilômetros deveríamos enfrentar uma terrível subida da Cuesta Moraga, até chegar a 650 metros de altitude. Além do mais, a distância a ser vencida seria de 85 km. Todos estavam psicologicamente preparados para enfrentar muita dificuldade. Ao chegarmos no final da subida, todos perguntaram:

- Onde está a dificuldade?

Começamos a grande descida. Alguns chegaram a 60 km/h, fazendo um downhill no cascalho com a bicicleta carregada. O Almiro desceu segurando os freios com medo de cair(*)[1]

Se a Cuesta Moraga foi fácil, grandes subidas nos esperavam pela frente ainda nesse dia. Nos primeiros 40 km o Ricardo vinha sempre por último. Parava com muita freqüência. O Gustavo, que tinha inspirado um pouco de preocupação dois dias antes, estava perfeitamente em forma. O Almiro comportou-se muito bem, chegando mesmo a nos surpreender, pela disposição que demonstrou. A viagem foi realmente muito bonita, montanhas nevadas exibindo toda a sua beleza, o clima ameno, com pouca chuva e nada de vento,o sol só apareceu na parte da tarde, meio tímido, mas suficiente para embelezar ainda mais a paisagem.

Foram sete horas e dezoito minutos de pedalada e quase doze de estrada! O Ricardo, o Gustavo e o Almiro superaram os próprios recordes de distância pedalados em um só dia. Foram 90 km de estrada de pedra! Nada mal para quem está iniciando este esporte. Os últimos 10 km foram particularmente difíceis por causa da grande quantidade de pedra solta na estrada enlameada. Uma patrola havia passado há pouco tempo e deixado a estrada muito difícil para os ciclistas.

Chegamos na pacata e linda cidade de La Junta às 20:30h bastante cansados e debaixo de chuva. Hospedamo-nos no Residencial Elizabeth por CLP$ 3.500 por pessoa sem café da manhã e com banheiro no quarto. Fizemos um lauto jantar a base de salmão e “côngrio” por CLP$ 3.500 por pessoa. Um pouco caro, mas inevitável diante da fome do grupo.


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(*) Essa precaução lhe custou a troca de dois pares de freios, pois com o tempo chuvoso e com o piso molhado, o desgaste das borrachas é muito maior.

08/01/2005 – Nono dia

La Junta

Dispensamos o café que custava CLP$ 1.500 por pessoa e usamos o refeitório do residencial para tomar o nosso café com pão e queijo.

Decidimos mudar o nosso roteiro. Ao invés de ir sempre pedalando para o sul, resolvemos apanhar o ônibus e ir até o final para pedalar do sul para o norte. Assim poderíamos conhecer toda a Carretera Austral e pedalar na parte que nos fosse possível. As informações eram desencontradas. Sabíamos que o ônibus saia entre as 12 e as 14 horas. Preparamos as bicicletas e fomos para o lugar indicado.Às 11:45h o Almiro pediu informação e soube que estávamos no lugar errado. O ônibus passaria na rua principal. Seguimos até o lugar indicado e tivemos a desagradável notícia de que o ônibus em questão era apenas uma Van e que a mesma já vinha lotada de Chaitén.

Tentamos fretar uma Van para nos levar até Coyhaique. O proprietário pediu CLP$ 100.000 para fazer a viagem de 290 km. Se esperássemos até o dia seguinte, pagaríamos apenas CLP$ 60.000 e teríamos que dormir mais uma noite em La Junta. Falamos com o proprietário e ele nos fez a proposta de cobrar CLP$ 15.000 por pessoa, incluindo a pousada. Sairíamos no dia seguinte às 8:30h. Aceitamos a proposta. Para nossa surpresa, o alojamento seria o melhor de todos até então. O Valdo e o Almiro ficaram num apartamento com banheiro, TV a cabo e aquecedor e os demais ocuparam um apartamento com três camas, banheiro, mas sem TV.

Transformamos o banheiro em cozinha para abrigar os fogareiros contra o vento. O Gustavo assumiu a cozinha. Sentou no trono e preparou um almoço delicioso.

O sol brilhou o dia inteiro e foi possível secar a roupa. As montanhas ao redor de La Junta exibiram seus cumes brancos de gelo, servindo de espelho para o sol. Aproveitamos para fazer um passeio pelos arredores, sem os alforges.

O Almiro e o Nilson compraram querosene e o Nilson fez uma lavagem geral nas bicicletas, eliminando todo o barro impregnado, percebemos que a mudança entre as marchas melhorou

No final da tarde fizemos outro acordo com o dono da Van. Ele nos levaria até Cochrane, distante 585 km de La Junta, por USD 375,00 dólares incluindo a pousada, ou seja, USD 75,00 dólares por pessoa = .CLP$ 41.250 pesos = R$ 195,00.

Ao anoitecer tivemos um tempo ocioso e nos agrupamos em um quarto para jantar nossos primeiros “bifinhos” desde que saímos do Brasil. A carne estava um pouco dura, mas pudemos saciar nossa vontade. Ficamos conversando até mais tarde, sentindo que cada vez mais constituíamos como grupo. Cada vez mais expúnhamos uns para os outros e sentíamos mais co-responsáveis pelo bem estar um do outro.

09/01/2005 – Décimo dia

La Junta – Coyhaique de Van

Os alforjes foram colocados em cima da Van e cobertos com uma lona. Por cima da lona foram colocadas as bicicletas. Ficamos preocupados com a maneira com que elas estavam sendo acomodadas, tivemos que intervir com o auxílio do Nilson, afim de evitar que ocorresse algum dano aos câmbios durante o trajeto para Coyhaique, pois poderia significar o fim da viajem para algum dos integrantes.

Iniciamos a viagem às 8:45h com destino a Coyhaique, onde chegaríamos às 15:30h, depois de uma linda viagem pelo Parque Queulat com muitas montanhas e o lindo Ventisqueiro Colgante, que se estendia até em cima da Carretera. Que espetáculo! Algo nunca visto por nenhum de nós. Ao sairmos do parque a paisagem começou a mudar. Entramos em outro tipo de vegetação, mais baixa. As florestas ficaram para trás. O clima também mudou.

Ao chegarmos na Hospedaje Guibel, em Coyhaique, vimos, pela primeira vez, um pé de cerejeira carregado de frutas. Feitas as fotos, o Almiro e o Ricardo saíram para comprar um saco de cerejas frescas, colhidas na hora. Saímos para visitar a cidade. O motorista, Sr. Garcia, nos levou para ver a Pedra do Índio, a Praça de Armas e outros lugares turísticos da cidade. Após a visita, ficamos no centro e programamos para ir à Missa das 19 horas, queimar os CD’s com as fotos, jantar e voltar para casa.

Às 18:45h entramos na igreja e percebemos que não havia ninguém. Fomos consultar o horário e vimos que durante o verão a missa é celebrada às 20:00h. Saímos para um passeio. Todos estavam com fome e resolvemos ir jantar, o Valdo voltou para a Igreja pois queria participar da Missa dominical. Após a missa, resolveu não jantar, mas só por curiosidade, passou no restaurante dos Bombeiros, que dizem ser o mais barato da cidade. Como estava aberto, entrou. Estava sem os óculos e quando a garçonete trouxe o menu resolveu jantar e pediu Salmão, salada e uma garrafa pequena de vinho. Nem precisa dizer que o jantar estava delicioso. Na hora de pagar, a surpresa. CLP$ 6.500 pesos. Algo assim como R$ 35,00. Ficou com um pouco de remorso, sobretudo quando soube que os outros quatro tinham gastado apenas CLP$ 12.000 ou seja, CLP$ 3.000 cada um. Para amenizar o caixa, deu uma choradinha na hora de pagar a pousada e conseguiu um desconto de CLP$ 2.000. Pagou CLP$ 23.000 com o café da manhã. Falou com o Almiro e pediu à ele que impusesse as mãos para aliviá-lo da culpa. Ele o fez com um sorriso e tudo voltou ao normal.

Como as malas e as bicicletas tinham ficado em cima da Van, nós ficamos só com a roupa do corpo. Tomamos banho quente, mas tivemos que vestir a mesma roupa.

10/01/2005 – Décimo primeiro dia

La Junta – Cochrane de Van

Deixamos a pousada às 9 horas com destino a Cochrane. Na saída paramos numa loja de bicicleta para comprar mais um par de pastilhas de freio para o Almiro. Depois que ele gastou um par, ficou preocupado com os freios.

O dia estava com um sol maravilhoso. A viagem foi muito boa com paisagens espetaculares. Contornamos o Lago General Carrera de cor azul esmeralda com água gelada onde é possível pescar trutas. Um espetáculo deslumbrante para os nossos olhos. O percurso é muito acidentado. Numa das montanhas, chegamos a 1.150 metros acima do nível do mar. Chegamos em Cochrane às 17 horas. Ficamos num Residencial por CLP$ 5.000 com café da manhã.

Fomos até a empresa de ônibus e compramos as passagens de ida e volta para Caleta Tortel por CLP$ 50.000. Teríamos que viajar na terça-feira e voltar na quarta-feira para iniciar a viagem de volta às 19 horas a fim de percorrer, pelo menos, 30 km. A intenção era visitar o campo de gelo sul na Caleta Tortel. Fomos até o centro de informação turística que funciona muito bem no Chile. Em nossa expedição sempre encontramos atendentes atenciosas e informação precisa. Ficamos sabendo que os melhores passeios para se fazer em Caleta Tortel dependem do aluguel de um barco. Para conhecermos o campo de gelo sul teríamos que fretar um barco por CLP$ 120.000 e viajar por 12 horas. Assim optamos por  desistir de conhecer Caleta Tortel, voltamos até a agência e pedimos nosso dinheiro de volta. Com isso ganhamos dois dias a mais para pedalar.

 

11/01/2005 – Décimo segundo dia

Cohrane – Puerto Bertrand

MXS = 40,5km

ODO = 399 km

DST = 70 km

TM  = 5:47h

AVS = 12,2 km/h

 

Levantamos às seis horas. Montamos os alforjes, tomamos café às 7:10h e saímos de Cochrane às 7:45h. Logo na saída da cidade, começamos a subir. Subimos tantas montanhas que até perdemos a conta. A paisagem era deslumbrante. Quanto mais subíamos, empurrando a bicicleta, mas bela era a vista panorâmica.

O Ricardo vinha sempre por último, fazendo o maior sacrifício para empurrar a bicicleta morro acima, reflexo das festas de final de ano, onde não teve tempo hábil para treinar adequadamente. Nos topos mais altos, a velocidade não chegava a três quilômetros por hora. Apesar da dificuldade, tudo corria muito bem. O grupo estava mesmo animado. O Almiro caiu apenas uma vez, ao parar, como sempre enrolado no clip do pedal. Às duas horas começou um vento contra e muito frio. Num dado momento, tivemos que parar pois fomos envoltos num redemoinho. O Nilson quase foi jogado para fora da estrada. Não demorou muito e a chuva apareceu. Os dedos das mãos doíam de frio. Todos se abrigaram, mas reclamavam do frio intenso. A temperatura caiu de repente. Agora sim, a aventura estava completa. Conhecemos o que faltava. Chuva, frio e vento contra. Foi uma experiência não muito agradável, mas que fazia parte da aventura. Foi preciso passar por ela para saber como o organismo iria reagir.

Chegamos em Puerto Bertrand às 14:30h. O ciclocomputador marcava 42 kms. Decidimos seguir adiante e fazer um camping selvagem. No quilômetro setenta, encontramos um excelente lugar para acampar. Um bosque ao lado de um arroio de águas cristalinas a poucos metros do lago. No princípio, alguns não gostaram muito, mas depois que o sol apareceu, as coisas mudaram. Usamos o plástico do Gustavo, de 6 x 3 metros, para fazer uma cobertura para as barracas. Ficou muito bom e protegido da chuva. O Gustavo, Ricardo e Nilson prepararam o jantar: miojo, arroz e sardinha em lata. Todos comeram até se saciar. Acabamos o jantar às 18:30h. Como nesta região o sol só se punha às 21:51h, conforme indicava o GPS do Gustavo, dava a sensação de que estávamos no meio da tarde.

 

 

12/01/2005 - Décimo terceiro dia

Puerto Bertrand (Km 70) – Puerto Tranqüilo

MXD = 47,5 km

ODO = 451 km

DST = 52:57 km

TM  = 5:03h

AVS = 10,3 km/h

 

O Almiro estava mesmo impaciente, talvez por causa do frio ou do desconforto da barraca(*). Fazia muito frio, mas o sol brilhava lá fora. Levantamos às 7:15h. Quando olhamos para o lago, ficamos de boca aberta. As montanhas nevadas se espelhavam no lago formando um espetáculo de rara beleza. No dia anterior as montanhas estavam cobertas. Nem sabíamos que estávamos tão perto do gelo. Eis porque a noite foi tão fria. É impressionante a diferença entre um dia de sol, com o céu aberto e um dia de nuvens onde não se pode ver as montanhas que nos rodeiam.

Para desmontar o acampamento e montar as bicicletas foram necessárias quase duas horas. Saímos às 8:50h. A viagem começou num ritmo normal mas logo começaram as montanhas. Muitas subidas. Quanto mais alto, mais difícil e mais bonito o panorama.

Até a travessia do “desaguadero” do Lago General Carrera, a pedalada foi normal, apesar das subidas. Após a travessia de Ferry Boat (a ponte está sendo construída com previsão para inauguração em julho) subimos uma pequena encosta e logo começou o vento. Era um vento contra tão forte que quase empurrava a bicicleta para trás. Num dado momento, veio uma lufada de vento. O Valdo parou para se proteger. O Almiro vinha atrás, pedalando com a cabeça baixa. Ouviu-se um baque na roda traseira. Nada de grave, apenas um raio quebrado que foi trocado ao chegarmos no acampamento.

A pedalada com vento contra era tão penosa que a velocidade não passava dos 4 ou 5 km/h. Para fazer a nossa parada técnica, tivemos que nos enfiar no meio do mato para nos proteger do vento.

Para nossa sorte, tudo não durou mais de uma hora, pois ao fazer o contorno do lago, mudamos de direção e o vento começou a soprar a favor. Que maravilha! Quando nós pedalávamos nem sentíamos o vento. Bastava parar para sentir o vento gelado nas costas, que vinha das montanhas geladas.

Nesse dia o Almiro amanhecera com dor de cabeça. Tomou um Paracetamol. Pedalou até às cinco da tarde e a dor de cabeça não parou. Doía a nuca. No camping tomou um medicamento para controlar a pressão. Também não resolveu. Mais tarde tomou uma aspirina e continuou desconfortável. Depois do jantar, ele não se sentia nada bem. O Valdo fez-lhe uma imposição de mãos nas frontes, quanto ele já estava deitado na barraca. Funcionou e, graças a Deus, ele dormiu bem a noite inteira. Nós estávamos realmente preocupados, pois o lugar onde nos encontrávamos era de difícil acesso e não havia condução para removê-lo dali, caso houvesse necessidade.

Faltavam poucos quilômetros para chegar em Puerto Tranqüilo. Estávamos no alto da montanha. Lá em baixo avistava-se o Lago General Carrera com suas águas azuis. Uma placa indicava: Excursão para a Catedral de Mármore. Resolvemos descer. Era uma encosta de uns 300 metros de desnível, muito íngreme. A bicicleta deslizava mesmo arrastando a roda. Ao chegarmos em baixo, todos estavam preocupados com a volta no dia seguinte.

Acampamos ao lado do Lago num lugar magnífico. O camping não tinha muita infra-estrutura, mas além de ser grátis, tinha uma privada no meio do bosque e um fogão a lenha onde fizemos a comida. Pagamos CLP$ 15.000 para fazer a excursão em um pequeno barco, até a Catedral de Mármore. Valeu a pena. Um espetáculo único, capricho da natureza.


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 (*) Nota do Valdo: O Almiro acordou e me perguntou:

- Que horas são?

Meio dormindo, eu vi mal a hora e respondi:

- Seis e meia. E continuei a dormir.

Todos dormiam, menos o Almiro. Mais tarde ele perguntou de novo:

- Que horas são? Já estava mais claro. Olhei bem no relógio e disse:

- Seis e quinze. É muito cedo, Almiro. Dorme! Fui acordado por ele pela terceira vez às 6:45h.

13/01/2005 – Décimo quarto dia

Puerto Tranqüilo – Rio Ibañez

MXS = 41 km/h

ODO = 513 km

DST = 62 km

TM  = 5:27 h

AVS = 11,4 km/h

 

Uma noite fria, mas bem dormida. O vento soprou a noite inteira batendo na copa das árvores. Nós estávamos protegidos apenas ouvíamos o barulho. Às sete horas ouvimos o Ricardo cocoricando como um galo para acordar o pessoal. O Almiro mandou dar uma pedrada no galo.

Na noite anterior tínhamos ficado conversando, sentados num banco, à beira do lago, contemplando o magnífico panorama do Lago General Carrera. Recolhemo-nos às 22:15h e ainda era dia claro.

A visita à Catedral de Mármore agradou a todos. Foi algo diferente de tudo o que já havíamos visto. É uma obra de arte esculpida pelas ondas do lago, num gigantesco bloco de mármore que se desprendeu da montanha e caiu no lago.

Estávamos preocupados com a subida de 300 metros. Na verdade, foi bem mais fácil do que se esperava. Levamos apenas meia hora para chegar na carretera.

Descemos dois quilômetros e chegamos em Puerto Tranqüilo. O Almiro comprou dois pacotes de bolacha recheada, mas ninguém se lembrou de comprar pão.

Pedalamos três horas e meia rodeando o Lago General Carrera. Pegamos vento contra durante meia hora. É sempre cansativo pedalar contra o vento além de sentir muito frio.

Os 62 kms foram muito variados. Estrada de pedra solta; costela de vaca; chão batido que parecia asfalto. No início de uma descida, o Almiro caiu pela quarta vez. Como estava sem luvas, machucou um pouco as mãos.

Ao chegarmos na entrada de Puerto Murta, vimos que a vila estava a 4 km de distância. A intenção era comprar pão. O Nilson, o Gustavo e o Almiro tinham seguido na frente. Quebraram a regra de nunca perder o contato visual. O Valdo e o Ricardo pararam no trevo. Como já tinham pedalado uma hora, aproveitaram de um banco no trevo, para fazer a merenda. Bateram fotos e depois de quinze minutos, seguiram adiante. Ao virarem a curva encontraram o Gustavo que voltava para ver o que tinha acontecido. Os outros dois estavam mais adiante, cansados de esperar e com fome, pois nem sequer tinham merendado. Ao serem interrogados, inventaram uma desculpa, dizendo que não sabiam se  eles tinham seguido adiante ou se tinham ido a Puerto Murta.  Durante toda a viagem batemos na mesma tecla, mas tem sempre alguém que gosta de pedalar na frente. Não é fácil manter o grupo sempre junto.

Este pequeno incidente serviu para unir o grupo. O resto da viagem foi feita em fila indiana. Quem ia na frente marcava o ritmo e, de vez em quando, havia o revezamento. A experiência foi boa. Restava saber se o grupo iria se manter assim até o final.

Às 17 h encontramos um lindo lugar para fazer um camping selvagem. Às margens de um arroio cristalino que deságua no Rio Ibañez. O camping fica no meio de um lindo bosque onde havia os restos de uma fogueira e bancos para sentar. Armamos as barracas e preparamos o jantar.

Do outro lado do Rio Ibañez há uma alta montanha coberta de neve que soprava um vento gelado em nossa direção. Ainda bem que as árvores nos protegiam, senão iríamos congelar durante a noite. O Gustavo e o Valdo caminharam uns 100 metros pelo leito seco do rio até chegar à beira da água. Sentaram num tronco seco. Depois de um papo gostoso, o Gustavo se retirou por causa do vento frio. O Valdo aproveitou para escrever o diário e usou o resto do tempo para meditar, ouvindo apenas o barulho das águas e o assobiar do vento frio.

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[1] Nota do Valdo: Na verdade, eu queria castigá-los por não os terem esperado. Fiquei um pouco chateado por ter agido assim, principalmente por ter dito uma inverdade, embora a lição tenha servido ao grupo.

14/01/2005 – Décimo quinto dia

Rio Ibañez – Cerro Castillo

MXS = 46 km

ODO = 588 km

DST = 75 km

TM  = 5:35h

AVS = 13,3 km/h

 

Uma noite muito fria. Durante a madrugada, uma chuva fraca ajudou a esfriar ainda mais. Acordamos às sete horas com o cocoricó do Ricardo, mas ninguém se animou a levantar. As gotas de orvalho, ou da chuva, caíam em cima das barracas. Ninguém levantou para ver como estava o tempo fora do bosque. Dormimos mais meia hora e aos poucos a vida começou a aparecer no acampamento.

Como estávamos sem pão, o café foi racionado. Dois pacotes de bolacha, separados em porções iguais. No nosso grupo ninguém tinha privilégios apesar dos desníveis de idade. Havia outra preocupação com o que iríamos comer durante a viagem, uma vez que estávamos no vale da morte. O vale tem este nome por causa de uma erupção vulcânica que aconteceu em 1991.As cinzas vulcânicas mataram todas as árvores e os animais da região.

A vida recomeçava aos poucos. Já existem alguns moradores na região. Encontramos um rebanho bovino na estrada, mas não vimos ninguém por perto.

Durante a viagem, encontramos um ciclista chileno pedalando contra o vento. Mais adiante, um francês rebocando um carrinho de bagagem que chamou a nossa atenção. Conversamos durante dez minutos. Ele se dirigia para o Ushuaia onde iria tomar o avião para França.

As primeiras duas horas foram de subida. Chegamos a 600 metros de altitude. Depois da descida, entramos no Vale da morte. Todas as árvores estavam secas. O espetáculo é bonito e tétrico ao mesmo tempo. A vida recomeça por baixo. Uma pequena vegetação verde começava a se formar no meio das árvores secas. Em compensação a estrada é tão lisa que até parece asfalto. Se antes a velocidade não passava dos 5 km/h, ao chegarmos na descida de terra firme, todos se animaram e a velocidade passou dos 30 km/h. Para ajudar ainda mais, tínhamos vento a favor. Foi assim até o km 50, quando enfrentamos a última subida que nos levou a um dos lugares mais lindos de toda a viagem. O céu, de um azul intenso, contrastava com os altos picos nevados do Cerro Castillo e outras montanhas que serviam de moldura. Um espetáculo de encher os olhos. Nunca fizemos uma pedalada em lugares tão maravilhosos como aquele. Valeu todo esforço.

Faltavam apenas dois quilômetros para terminar a etapa. Pegamos um desvio para ver as inscrições rupestres, num lugar arqueológico chamado “Las Manos”. Foram dois quilômetros por uma estrada secundária com descidas, pedras soltas e muita areia. Mesmo assim, ninguém caiu. Chegamos ao lugar e na vitrine havia uma página escrita a mão dando as boas-vindas. O preço da visita guiada era de CLP$ 1.000 por pessoa. Como o guia estava ausente, pedia que, quem quisesse, podia colocar o dinheiro por baixo da porta.

Estávamos cansados. O Ricardo deitou-se no chão e relaxou durante 10 minutos. O Almiro sentou-se num banco para descansar, Os demais estavam inteiros. Seguimos a trilha em direção a um grande paredão de pedras. Todos esperavam encontrar grandes inscrições esculpidas nas pedras. Ao chegarmos ao local, o que vimos, foi apenas pinturas de mãos de cor vermelha em negativo e positivo. Via-se no rosto de todos uma certa desilusão. Foi o resultado de não termos prestado atenção ao letreiro que dizia claramente; “Las Manos”. Já tínhamos visto fotos em Coyhaique mas ninguém tinha prestado atenção. Algumas coisa são mais bonitas na foto do que na realidade.

Chegamos em Cerro Castillo às 18 horas. Hospedamo-nos no Residencial el Castillo por CLP$ 3.000 sem café da manhã.

Depois de três noites de camping selvagem, a primeira coisa que todos queriam era um banho quente. O primeiro a entrar no chuveiro foi o Gustavo. Sem querer exagerar, também porque não marcamos no relógio, mas ele deve ter demorado pelo menos uns 10 minutos em baixo do chuveiro. Como só havia um chuveiro, os demais esperaram pacientemente. Aproveitamos para lavar a nossa roupa.(*) O sol e o vento forte ajudaram a secar toda a roupa.

A dona da pousada prontificou-se a preparar o jantar. Ovelha com batatas, alface e tomate. Um quarto de ovelha ao forno por CLP$ 2.800 por pessoa. Aceitamos a oferta. O grupo estava com tanta fome que ao ver o quarto de ovelha, pediu ao Valdo para dobrar a quantidade de carne. Queriam comer até se fartar. A senhora preparou meio carneiro. Ao servir o jantar, todos ficaram espantados ao ver a quantidade de carne que havia na bandeja. O jantar foi acompanhado por dois litros de vinho e dois litros de refrigerantes. Para completar o banquete, ainda houve sobremesa com salada de frutas com leite condensado que o Nilson carregava no alforje desde Puerto Montt.

Todos já de barriga cheia, foram curtir um colchão quentinho, depois de três noites de frio nas barracas.


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(*) Nota do Gustavo: Direito de defesa: demorei porque os aquecedores chilenos esfriam e esquentam quando eles bem querem e porque precisava de lavar umas roupinhas. Claro que depois me arrependi vendo tantos companheiros sujos e amarrotados precisando de um banho há três dias, enquanto eu saía limpo do banheiro.

15/01/2005 – Décimo sexto dia

Cerro Castillo – Coyhaique

MXS = 67 km

ODO = 687 km

DST = 99 km

TM  = 7:55 h

AVS = 12.4 km/h

 

Às nove horas da manhã iniciava na cidade um famoso rodeio com a participação de cavalos de várias partes do país.Os cavaleiros usando trajes típicos. O pessoal até que estava animado a participar da festa, mas por fim, resolvemos seguir adiante. Tínhamos que enfrentar a “Cuesta del Diablo” com 14 km de subida, chegando a 1.120 metros de altitude. Fizemos um alongamento no residencial e partimos em ritmo de aquecimento para não nos cansarmos depressa. Desde o início tivemos uma simpática e agradável companhia: um cachorrinho branco, amigo do Almiro. Também sem pressa o pequeno quadrúpede fez-nos companhia por uma hora, até o momento de nosso lanche. Percorremos 10 km juntos, e ele não dava sinais de cansaço. Seu rabinho abanando nos conquistou a todos, mas o Almiro nos alertou para um perigo: também estávamos cativando o cachorro e, como nos ensinou a raposa do Pequeno Príncipe, nos tornaríamos responsáveis por ele. Estávamos em condição de cuidar de um cachorro? Se não, deveríamos fazer com que ele retornasse a sua casa. Tínhamos que agir como grupo e de forma coerente e convincente expulsá-lo para longe de nós, de volta a sua casa. Não foi fácil dizer: - “Fora! Não gostamos de você! Não te queremos mais!” - para aquela criaturinha simpática e meiga que havia abandonado o seu lar para nos fazer companhia em um clima tão inóspito! Pelo contrário, era de partir o coração! O Gustavo quase não conseguiu mas, enfim, fizemos o que precisava de ser feito e o cachorro retornou. Nós seguimos nosso caminho lembrando de sua lição de companheirismo e amizade.

A Cuesta Del Diablo seria a maior subida durante toda a viagem. Todos a temiam, mas na verdade, foi bastante fácil chegar ao topo. De Coyhaique até Puerto Chacabuco viajamos pelo asfalto. A Carretera Austral com o famoso “rípio” ficou somente na lembrança. Subir pelo asfalto é bem mais fácil do que empurrar a bicicleta por cima de pedras soltas. Em menos de três horas já tínhamos alcançado o topo da montanha. Veio então a parte mais espetacular da viagem: 14 km de descida inebriante. O Valdo chegou a 67 km/h e o Almiro, que tinha medo da descida, chegou a 66 km/h. O Gustavo com a sua Caloi Aspen, bateu o record: 77 km/h. Ao chegarmos em baixo, todos estavam exultantes, conferindo os velocímetros para ver quem tinha feito a maior velocidade. Ainda bem que ninguém furou o pneu dianteiro, senão, adeus aventura. Mas como diz o ditado; “Tudo o que é bom, dura pouco”, a nossa alegria iria terminar alguns quilômetros adiante. Ao entrarmos na parte plana, pegamos vento contra. O vento era tão forte que não conseguíamos passar dos 5 km/h. Nas subidas, por pequenas que fossem era uma luta para empurrar a bicicleta. Nas descidas, só se conseguia descer pedalando, tal era a força do vento. Isto durou das 13 até as 18 horas. Somente os últimos 10 quilômetros foram sem vento. O pessoal estava tão desanimado com o esforço que queria pedir permissão para acampar ao lado de uma casa. Infelizmente, ou felizmente, não sabemos, não encontramos nenhum lugar apropriado. O Gustavo queria acampar dentro de uma estrebaria. Foi a pedalada mais longa de toda a viagem.

Durante a viagem aconteceram três quedas. O Ricardo, parado, segurava a bicicleta pelo guidão. Numa distração, enrolou-se sobre a roda dianteira e se estatelou no chão. O Almiro parou atrás dele e deixou o pé preso no clip do pedal. Resultado, amontoou-se por baixo da bicicleta. Na última hora de pedalada, o Ricardo resolveu parar para apanhar água. O Gustavo vinha perto dele, olhando para trás e capotou por cima da bicicleta, amortecendo o peso do corpo com as mãos. Foi maior o volume da queda do que a conseqüência do tombo. Uma pequena contusão nos pulsos e nada mais. Bem que daria uma “vídeo cacetada”.

Esse dia teria sido uma maravilha se não tivéssemos enfrentado o vento contra. O asfalto era impecável. A nossa intenção era acampar duas noites em Coyhaique. Achamos um camping dentro da cidade mas o preço era de CLP$ 3.000 por pessoa. Decidimos voltar para a Hospedaje Guibel, Calle Lautaro, 1244 – Barrio Seco, da dona Mercedes, onde já tínhamos pernoitado na ida. Acertamos o preço por CLP$ 3.000 sem café da manhã.

Nada como um bom banho quente para recuperar as energias. Fomos ao Supermercado comprar macarrão e carne para o Gustavo preparar o nosso jantar: um delicioso talharim à bolognesa! Ricardo e Gustavo se esmeraram e, com a ajuda da Dona Mercedes, conseguiram acertar a receita! Todo mundo se esbaldou! Comemos juntos dez porções, e éramos apenas cinco... Também, pudera, foram 100 km pedalados!

No dia seguinte, domingo, aproveitamos para descansar. Participamos da Missa das 10 horas e fomos até o centro para gravar as fotos no CD. O Almiro estava com sede e sentou-se numa mesa, na calçada, para tomar água, os demais o acompanharam. Foram duas águas pequenas e dois refrigerantes. Na hora de pagar, ele ficou espantado, o preço normal do refrigerante e da água é CLP$ 300. Ele pagou CLP$ 1.200 cada um. Um assalto à mão desarmada !. O mais curioso foi que ainda pedimos ao garçom para tirar uma foto do grupo. A foto vai servir como recordação do “assalto”.

Na volta do passeio matinal passamos no Supermercado e fizemos a compra para o almoço de domingo, que saiu às 16 horas. O Gustavo e o Ricardo novamente se esmeraram e prepararam um rigatoni ao molho de “funghi chileno”, filet e creme de leite, tão saboroso que espantou até a dona Mercedes, que tinha sido convidada para o almoço. No final ela disse:

- Hoy aprendí un nuevo plato, que rico !!!

É claro que não faltou o delicioso vinho chileno que ali custava CLP$ 1.800 a embalagem tetrapack de dois litros. Depois do almoço o Gustavo e o Ricardo aproveitaram da carona do Marcelo, filho da dona Mercedes, e foram visitar os lagos da redondeza. O Nilson se encarregou de lavar a louça.

Os três que ficaram em casa, descansaram um pouco e depois saíram para um passeio pela redondeza.

No final do dia, fizemos um lanche no nosso quarto e depois, sentados em duas camas, filosofamos até meia noite, pela primeira vez tocando em temas como espiritualidade e sentido da vida.

17/01/2005 – Décimo sétimo dia

Coyhaique – Puerto Aysén

MXS = 45 km

ODO = 659 km

DST = 72 km

TM  = 5:01 h

AVS = 14,5 km/h

 

Não houve cocoricó de galo. Acordamos às 7:30h. Como a etapa seria relativamente fácil, não tínhamos pressa em deixar a cidade. O Almiro tinha proposto sair bem cedo para evitar o vento contra, mas como nesta região o vento não tem hora para aparecer, concordou em sair mais tarde.

Começamos a pedalar às 9:45h. Os primeiros dois quilômetros foram de descida para preparar os 5 km de subida em caracol, sem muita dificuldade até chegar ao mirante, de onde se contempla a cidade de Coyhaique. Uma linda visão para compensar o esforço da subida. O grupo seguia compacto, numa velocidade moderada, sempre descendo às margens do rio Simpson, durante 42 km, sempre com vento contra. Somente ao chegar no final da nossa viagem, conseguimos pedalar todos juntos, durante os 72 km. Durante a nossa viagem encontramos vários ciclistas de várias nacionalidades, mas o que mais chamou a nossa atenção foi o encontro com dois ciclistas italianos que estavam viajando desde novembro. Começaram a viagem em Lima, no Peru, em novembro. O Guido tem 67 anos e o Ettore 69, dois tipos muito particulares. Entre eles, falavam em dialeto e conosco em italiano com algumas palavras em espanhol. O Ettore tinha um reboque repleto de bagagem. Devia levar mais de 50 quilos no reboque e nos alforjes. O Guido tinha se desfeito do reboque e levava uns 50 quilos na bicicleta. Nunca vi tanto exagero. Entre outras coisas, levavam um purificador de água que tinham comprado na Suíça por cem euros. Conversamos durante uns dez minutos e seguimos a nossa viagem. Eles iam até o Ushuaia. Ainda estavam bastante longe.

É interessante ver como não existe idade para fazer cicloturismo. Apenas é preciso disposição e um certo preparo físico.

Às quatro da tarde já estávamos em Puerto Aysén. A viagem pelo vale do Rio Simpson foi muito bonita. Muito verde, várias cascatas e um imponente véu de noiva.

Depois de passar no centro de informação turística, visitamos a Praça de Armas e seguimos em direção oposta a Puerto Chacabuco para acampar. Encontramos um lindo lugar, à beira do rio, para acampar pela última vez.

O Almiro queixou-se, pela segunda vez, de dor de estômago. Já era o segundo dia. Ainda bem que o Ricardo tinha um comprimido milagroso (Pepto bismol).

18/01/2005 – Décimo oitavo dia

Puerto Aysén – Puerto Chacabuco

MXS = 29,2 km/h

ODO = 780 km

DST = 20:41 km

TM  = 1:41 h

AVS = 12 km/h

 

Um lugar muito bonito para acampar, mas muito barulhento. Estávamos a poucos metros de um ancoradouro de uma balsa que trabalhou a noite inteira. Mesmo assim, conseguimos dormir até às 8 horas. Tínhamos apenas 20 km pela frente e um dia inteiro para gastar. Deixamos o acampamento às 8:40h. Na saída encontramos um casal de brasileiros da cidade de Piracicaba que, juntamente com mais nove pessoas, tinham alugado um barco para navegar até a Laguna San Rafael. Pagaram CLP$ 1.800.000 pela viagem de 4 dias, algo assim como USD 260 dólares por pessoa.

Viajamos num ritmo lento, contra o vento, numa estrada plana, com bom asfalto. Em Puerto Chacabuco achamos um residencial por CLP$ 4.000 sem café da manhã, Restaurante Y Residencial El Puerto. O Almiro nos brindou com um almoço, pescado com arroz, regado a vinho. Foi aqui que conhecemos a “Miss simpatia”, que era a responsável ou dona do residencial, demos esse título pejorativo à ela por se difereciar da hospitalidade que recebemos dos últimos residenciais, que havíamos nos hospedado.

O Ricardo, o Gustavo e o Valdo saíram, para confirmar a partida para o dia seguinte. Chegaram ao porto e receberam uma má notícia. O Catamaran estava com o motor quebrado em Puerto Montt e não tinha previsão de retornar a viajar. Tomaram o ônibus e foram até Puerto Aysén para tentar resolver o problema. O escritório da Agência Aysén Express estava fechada. Foram a um local de chamada telefônica e ligaram para Coyhaique. Passados alguns minutos, foram convidados a passar no escritório da empresa que já estava aberto. A primeira proposta do funcionário foi que deveriam voltar no dia seguinte, às 9 horas para receber o dinheiro de volta. A pergunta espontânea foi:

- O que é que nós vamos fazer com o dinheiro?

Depois de alguns minutos, ficou decidido que eles iam procurar uma solução para o dia seguinte.

19/01/2005 – Décimo nono dia

Puerto Chacabuco – Coyhaique

 

Telefonamos para a Agência às 9:10h e ficou combinado que iríamos viajar de avião desde Balmaceda até Puerto Montt. Balmaceda fica a 42 kms ao sul de Coyhaique. Às 11:30h encostou uma Van para fazer o “transfer” de Puerto Chacabuco à Coyhaique onde iríamos passar a noite. Colocamos as bicicletas em cima da Van e percorremos os 90 kms de volta até Coyhaique para hospedar-nos no Hotel Austral. Dois quartos com três camas cada um. Por ser um Apart Hotel, dentro do quarto havia geladeira, fogão e pia, além de panelas e louça. Como tínhamos recebido somente a hospedagem, a comida foi por nossa conta. No quarto onde o Valdo ficou com o Almiro tinha um living com mesa. Foi sem dúvida um dos ambientes mais confortáveis da nossa viagem.

O Almiro o Nilson e o Valdo saíram para comprar comida para o almoço e café da manhã. O Gustavo e o Ricardo subiram até a Hospedaje Guibel, onde já tínhamos dormido três noites, para fazer uma visita à dona Mercedes. Acabaram combinando de levar bebidas e temperos e ela se prontificou em preparar as famosas “empanadas chilenas”, para comermos à noite.Depois do almoço, caminhamos até o centro para fazer câmbio e descarregar as fotos no CD.

Às 20 horas fomos comer “empanadas chilenas”. O Gustavo, Ricardo e Nilson foram antes e meteram a mão na massa literalmente falando e aprenderam e ajudaram a preparar as “empanadas”. Quando o Valdo chegou com o Almiro já estavam todas prontas. Tomamos uma verdadeira barrigada, acompanhado de vinho e refrigerante. No final, sobremesa de sorvete, oferecido pelo Gustavo e por último, um prato de cereja para cada um, oferta da dona Mercedes.

Na hora da saída a dona Mercedes nos ofereceu duas caixas de cerejas, que serviu para o café da manhã do dia seguinte. Percebemos neste momento a amizade que nasceu do nosso grupo com a família da dona Mercedes, a alegria de ter nos recebido e o carinho com que todos nos trataram.

20/01/2005 – Vigésimo dia

Coyhaique – Balmaceda

 

Às 11 horas liberamos o quarto e fomos para a portaria jogar xadrez, dominó e por fim fizemos um lanche.

Às 13.15h chegou outra Van para fazer o “transfer” para o aeroporto de Balmaceda. Foram mais 42 kms rumo ao sul e à fronteira com a Argentina.

Os bilhetes já estavam no check in, de modo que não houve problemas. Nem sequer pagamos pelo transporte das bicicletas. Depois de um lindo vôo de 50 minutos, sobrevoando a Ilha de Chiloé e apreciando as montanhas nevadas, chegamos a Puerto Montt às 17 horas. Fomos realmente privilegiados com o tempo. Um dia assim não é muito comum nesta região. Na verdade, desde o dia 10, pegamos sempre bom tempo com muito sol e céu aberto.

Ao chegar no aeroporto o Ricardo e o Gustavo foram de ônibus até a rodoviária. O Ricardo antecipou a volta de um dia e tinha pressa em chegar na rodoviária para trocar a passagem.

Os outros montaram os alforjes na bicicleta e pedalaram 14 km até o Colégio Salesiano onde ficamos hospedados. Ao chegar no Colégio, encontraram o Ricardo e o Gustavo que tinham deixado as bicicletas na rodoviária e tinham vindo de coletivo para buscar a passagem e a mala-bike que estava no Colégio.

O Gustavo acompanhou o Ricardo até a rodoviária e depois voltaria pedalando. Ia também comprar salmão defumado para o jantar. Saíram às 19 horas. Às 20 horas o Almiro sugeriu que pensássemos em outra coisa para espantar a fome. Queria esperar pelo Gustavo para preparar o jantar. Como ele queria deitar e estando com fome, preparamos um chá com sanduíches. Esperávamos que o Gustavo chegasse pelas 9 horas. O tempo foi passando. 9:30h. 10h. Anoiteceu. Nada de Gustavo. 10:30h. Nada. Resolvemos sair para procurar o Gustavo. Estávamos realmente preocupados. Tudo tinha corrido tão bem e agora, no final, um problema desses. 10:45h. Entramos num Supermercado e o dono nos aconselhou a tomar um coletivo e ir até os “Carabineros”. Assim fizemos. O Almiro e o Nilson foram até a polícia e o Valdo voltou para casa. Chegando lá, encontrou o Gustavo que tinha acabado de chegar por outra rua. Já passavam das 11 horas da noite. O Valdo voltou até o supermercado para telefonar para a polícia e avisar que já tínhamos encontrado o desaparecido. Ao chegar em casa, encontrou o Almiro e o Nilson que tinham voltado com o mesmo coletivo.

Foi uma situação constrangedora, era um misto de alegria ao ver o irmão de volta e de revolta por ter vivido uma situação angustiosa sem necessidade. Embora fôssemos todos adultos, o Valdo se sentia responsável pelo grupo.

O mais interessante foi ver a calma do Gustavo ao explicar que ele tinha ficado na rodoviária até o Ricardo embarcar. Houve atraso e o ônibus só saiu às 22:50h(*). A nossa preocupação tinha sentido. Onze horas da noite. Uma noite fria. O Gustavo só em manga de camisa, pedalando sozinho. Pensávamos num acidente de trânsito ou num assalto. Graças a Deus, tudo terminou bem.

Já passava de meia noite quando comemos o salmão e tomamos o vinho.


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(*)  Nota do Gustavo: Saí para ajudar o Ricardo a embarcar, sem imaginar que demoraria tanto. Na verdade passei todo o tempo ocupado em ajudar o Ricardo a fazer umas compras, ir ao mercado Angelmo e desmontar a bicicleta. Claro que me senti constrangido ao ver que meus companheiros tinham ficado preocupados, mas não via meios de tê-lo evitado.

21/01/2005 – Vigésimo primeiro dia

Puerto Montt

 

Acordamos com frio e chuva forte. Já passava das nove horas quando o Almiro bateu na porta.

Às onze horas já tinha parado de chover. Munidos das nossas capas de chuva, saímos a pé para o centro. Apenas dois quilômetros. Gravamos um CD para cada um com as fotos digitais e caminhamos até o Mercado Angelmo, lugar turístico com restaurantes típicos. Percorremos todos os corredores antes de decidir por um bem típico, no meio do mercado. O preço variava entre CLP$ 2.000 e 2.500 o prato de salmão ou marisco.

Comemos dois salmões e dois “curantos”, uma travessa com vários tipos de mariscos, frango, calabresa, sopa e mais um cozido que não conseguimos identificar. Uma verdadeira delícia. O Almiro nos brindou, em nome da Grings, com duas garrafas de vinho. O Gustavo estava super empolgado em comer num restaurante típico. Valeu!

 

Na volta aproveitamos para fazer compras. Repartimos CLP$10.000 para cada um, do caixa comum. O restante ficaria para ser repartido em Santiago.

Voltamos para o Colégio para o banho, jantar e preparar as bicicletas para seguir para a rodoviária. O Almiro desmontou a bicicleta, pôs na caixa e foi de táxi para a rodoviária. Os demais foram pedalando e usaram a mala-bike na rodoviária.

Houve certo contra-tempo na hora do embarque. A nossa passagem estava marcada para as 22:30h. O ônibus que encostou marcava 22:45h. Depois de um pouco de confusão, descobrimos que a nossa passagem estava como horário errado mas o ônibus era o mesmo das 22:45h.

 

 

Conclusão do Valdo

 

Uma viagem inesquecível. Nunca poderia imaginar que um grupo de pessoas desconhecidas, de diferentes idades, conseguisse fazer uma viagem de quase um mês, com tanta harmonia, respeito e amizade. Havia uma preocupação constante de tornar a viagem sempre mais agradável. Cada um se esforçava para dar o melhor de si mesmo. Mesmo nos momentos de maiores dificuldades, sempre houve compreensão e otimismo.

De um grupo de pessoas que não estava fisicamente preparado para uma viagem deste porte, o que se poderia esperar? Ninguém fazia uma idéia exata. A garra com que todos enfrentaram o desafio; a vontade de vencer; o desejo de ir ao encontro do desconhecido e de superar os próprios limites, foi o moto propulsor de tudo. Alguns não acreditavam em si mesmos; tinham medo de fazer feio ou de atrapalhar o grupo. Mas o que foi que presenciamos? Muita camaradagem, compreensão com os limites de cada um. Quem estava num ritmo superior foi aos poucos se adaptando aos demais. Não se tratava de uma competição para ver quem era o melhor. Todos queriam curtir ao máximo as belezas naturais que a Patagônia chilena oferece em abundância. Se fosse necessário, parávamos dez vezes, no intervalo de uma hora, para admirar as maravilhas que nos rodeavam.

Outra conclusão a que cheguei foi a de que não existe idade para fazer cicloturismo. Basta um mínimo de preparo físico e muita disposição. É necessário também estar preparado para enfrentar desconforto, além das coisas boas que a viagem oferece. Saber viver em plenitude os pequenos momentos que a vida nos oferece. Foi o que fizemos durante a nossa expedição pela Carretera Austral.

Ao terminar a viagem, uma grande alegria irradiava do rosto de todos. Parecia que cada um estivesse acordando de um sonho impossível. Mas não era sonho, era a realidade da vida vivida em toda a sua intensidade, durante muitos dias de liberdade total.

Obrigado meu Deus por esta aventura.

Obrigado a todos os participantes que souberam dar o melhor de si mesmos para tornar este sonho uma realidade.

Até a próxima.

Valdo

 

Conclusão pessoal do Gustavo

 

            Sair da rotina e se aventurar é fundamental. A vida nas grandes cidades pode ser muito dura, impessoal, desigual. Convivemos com pessoas fantásticas sem nunca nos aproximarmos de fato, devido aos formalismos, às expectativas, ao jogo social. Quando comecei essa viagem estava vindo de uma seqüência de compromissos de fim de ano que me faziam sentir muito preso e muito responsável: relacionamentos amorosos mal acabados, crises pessoais em casa, compromissos de trabalho... enfim: precisava de férias!

Férias é aquele período em que podemos ser iguais. No trabalho temos hierarquias, diferentes atribuições de responsabilidade, diferentes remunerações. Nas férias temos tempo de sermos nós mesmos: frágeis, egoístas, medrosos, sonhadores, poetas, corajosos, alegras e brincalhões. Nesse clima de igualdade e autenticidade tornei-me, durante 30 dias, irmão e companheiro de pessoas que em condições normais de temperatura e pressão provavelmente nunca teria tido a oportunidade de conhecer bem. Na distante Carretera Austral conheci pessoas que, apesar de toda diferença aparente, eram na realidade seres humanos muito parecidos a mim. O que vivi, na verdade, nesses dias, foi uma experiência de igualdade, um sentimento de pertencimento à espécie humana e de aceitação de mim mesmo e de meus semelhantes, apesar de toda diferença aparente.

Foi nesse espírito que sumiram aos meus olhos atribuições de status e hierarquia que no Brasil seriam consideradas importantes para “conhecer verdadeiramente” meus compatriotas. Lá na Carretera não importavam suas idades, condições econômicas, profissão ou empresa em que trabalhavam. Importava sim, suas características humanas: seu bom humor, sua forma de perceber os acontecimentos, sua disposição para o trabalho e para o amor. Importava a contribuição que traziam para o grupo, e cada um contribuía ao seu jeito. Estava aberta a porta para conhecermos formas diferentes de ver o mundo e diferentes histórias de vida, e foi isso o que fiz, e que mais me gratificou nesse viagem: conheci o Valdo, o Nilson, o Fernando, o Ricardo e o Almiro e isso me levou a me conhecer melhor também. Os meus cinco companheiros de viagem, vivendo etapas diferentes de suas vidas, me fizeram pensar na minha, nas minhas escolhas, nas minhas opções. O cenário era maravilhoso, mas de que valeria o cenário se não fosse esses companheiros? Afinal, uma viagem não é apenas um deslocamento no tempo e no espaço, ela é, sobretudo, uma experiência pessoal, uma oportunidade de auto-conhecimento.

Assim, minhas principais descobertas da viagem foram:

O Valdo: pessoa inquieta, idealista, me fez voltar a 12 anos atrás quando pensava em ser sacerdote. Queria ser nosso pai e julgava-se responsável por nossa sorte por ter tido a iniciativa de organizar a expedição. Acho que tornou-se reconhecido no grupo como um pouco paternalista. É um eterno jovem em busca de aventuras e aborrecido com o mundo muitas vezes sem graça inventado pelos adultos. Brincalhão e bem humorado, mas também perfeccionista e exigente. Foi fundamental para que o grupo se constituísse no começo servindo de ponte entre as pessoas. Um grande atleta e nosso grande líder.

Almiro: um jovem que me marcou muito. Uma pessoa forte, de garra, de luta, que desde cedo aprendeu a dar o “urra!” mas que nunca perdeu a sensibilidade, o bom humor, a capacidade de fazer poesia e se encantar com a vida. Amante dos animais, das plantas e da natureza transmitiu-nos este carinho contando sua história de vida, à prestações, pois são muitos os feitos. Com seu bom humor quase irresistível, foi fundamental para equilibrar o clima do grupo nos momentos mais duros. Tratava a todos com um distanciamento respeitador, de quem reconhece que cada um é um indivíduo único, diferente. Gostava de pedalar sozinho, estar sozinho, e no final estava próximo de todos. Uma pessoa trabalhadora, solícita e generosa.

Nilson: dono de uma inteligência prática de invejar a todos. Era ele que resolvia os problemas no acampamento, ele que achava solução fácil quando todos ficavam parados. Era também espontâneo e bem humorado, rápido e diligente. Falava pouco e agia muito. Não reclamava de nada, nem quando algo o incomodava. Nos acampamentos, era responsável, junto com o Almiro, pela fogueira, ou seja, por propiciar o calor e o ambiente aconchegante que nos envolveria antes de abraçarmos a noite, o que é bastante simbólico da personalidade deles.

Fernando: seria uma injustiça lembrar do Fernando só pelos jantares que ele nos brindava. Ele era sobretudo uma pessoa calma e observadora. Alegre e culta. Dava-nos aulas sobre o mar e sobre o céu, sobre a comida e as plantas. Era um curioso que nos incitava a reparar melhor no nosso entorno.

Ricardo: pessoa delicada, sensível, atenciosa e também muito bom como companheiro da viagem, fera em montar acampamentos. e para resolver problemas práticos. Tinha experiência de acampamento e nos ensinou muito sobre essa arte. Por falar em arte, é um fotógrafo muito talentoso e também aprendiz de cozinheiro e de violão. Mesmo quando ficava um pouco para trás nas pedaladas, não reclamava e era bastante solícito para ajudar qualquer um que pedisse sua ajuda.

            Além desses cinco companheiros outras tantas pessoas também passaram por mim, deixando suas marcas, lembranças de sorrisos e gestos de carinho. É o que trago de mais precioso da viagem: Encontros. Terminada a Carretera Austral voltei um longo caminho até Belo Horizonte: uma semana. Nesses dias refleti sobre profissão e rumos a tomar. Era um esforço de por os pés no chão. Chegando aqui abraço minha rotina de trabalho e estudos um pouco mudado. Tenho consciência de que preciso ter meus pés no chão, mas por outro lado sei que voar é fundamental. Penso no refrão de Djavan: “vou andar, vou voar, pra ver o mundo/ nem que eu bebesse o mar/ encheria o que eu tenho de fundo” e planejo uma próxima viagem.

Muito obrigado Nilson, Fernando, Ricardo, Almiro e Valdo. Obrigado também às Outras tantas pessoas que passaram por mim nessa viagem e deixaram suas marcas.

 

Conclusão pessoal do Ricardo

 

Nada é por acaso, essa foi a frase que utilizei quando do meu primeiro bate papo com o Valdo, por telefone ao me apresentar e perguntar-lhe se poderia fazer parte desta viajem. Essa frase se concretizou ao longo de toda a nossa expedição, nos primeiros dias que foram aquele tumulto, as superações pessoais,ou seja, físicas e emocionais, o riquíssimo convívio em grupo e as mensagens que cada um passava a sua maneira, que ajudaram no meu crescimento pessoal.

Toda esta contribuição ocorreu porque todos estavam engajados em um único objetivo, que era participar de uma Expedição e não de uma simples viajem a Patagônia chilena.

Acredito que com este espírito expedicionário, misturado com o espírito peregrino edificamos um companherismo muito forte entre todos e muito belo de se ver. É interessante notar que esse grupo só se conheceu pessoalmente entre si, no momento do início da viajem, isso representou uma incógnita de como seria a convivência por um longo período com pessoas que mal se conheciam. Aos poucos todos foram se conhecendo e encontrando seu espaço e uma maneira de colaborar, com as atividades diárias, dividindo tarefas e planejando as etapas, que tínhamos por vencer.

Creio que o meu maior desafio tenha sido superar minhas limitações físicas, pelo pouco tempo que tive para treinar, uma vez que decidí participar desta expedição praticamente faltando dois meses para o seu início.

Uma das coisas que mais admirei no grupo foi o “Espirito de Equipe” que prevaleceu todo o tempo, principalmente nos momentos de maiores dificuldades. Cito como exemplo, quando pedalamos o dia todo, com vento forte soprando contra e que fizemos uma fila indiana e seguimos em velocidade reduzida e alternávamos quem ía na frente para poupar energia aos que vinham atrás. Acabávamos sendo sempre recompensados por belíssimas paisagens que tentamos registrar em nossas máquinas fotográficas.

Nossos bate papos após o jantar, eram profundos, que se transformavam em “vivências”, foram de tamanha magnitude e importância, que me fez rever alguns conceitos e valores sobre muitos assuntos que foram abordados.

 

Essa nova experiência em Cicloturismo me fez recordar as experiências valiosas que tive em longas caminhadas, que muito se assemelham e complemetam, recomendo a quem tem vontade de realizar um sonho, que não perca tempo, nunca é tarde para começar, uma das molas propulsoras é o querer realizar, como lí em algum lugar e peço desculpa por não lembrar e citar de quem é a frase: “Quando se tem vontade e determinação o mundo conspira a favor !!!”

 

Quero agradecer ao amigos que fiz nesta expedição, sem ser redundante nas conclusões, pelo companherismo, amizade e sobretudo a oportunidade de ter convivido com pessoas sensacionais, que para mim foram muito especiais.

Ricardo

 

Conclusão do Fernando

 

Sem fugir do “formato de diário”, narrarei alguns fatos ocorridos durante meu retorno. Após despedir-me do pessoal, segui do Ventisqueiro Yelcho para Chaitén, percurso inferior a 60 Km e praticamente descendo para o litoral . A grande diferença foi o fato de agora estar sozinho, excetuando alguns poucos veículos que cruzaram, nunca antes havia sentido-me tão só, porém a sensação foi esquisita e ao mesmo tempo bastante boa, uma paz de espírito que jamais havia experimentado. Houve momentos em que apesar de existir somente o caminho (Sul e Norte), senti aquela dúvida: será que estou no caminho certo?.

Como estava levando como “troféu” as garrafas cheias, uma c/agua do degelo e outra com água da Fonte Ferrosa, deixei minha caneca acessível para à medida que sentisse sede colheria água diretamente dos rios que abundavam a margem da carretera, sempre havia algum obstáculo, uma cerca, barranco muito alto, água turva... mas não passei sede.
A pedalada foi pesada, forte vento contrário apesar da descida, foram 61 Km a média de 13,1 Km/h. Chegando a Chaitén, fui diretamente a Hospedaje Don Carlos (Almirante Riveros,53), indicada pelo Sr. Luis, o qual conheci na noite anterior. Excelente local, muito confortável ( CLP$ 6.000. pela diária).

O Transbordo para Puerto Montt sairia somente no dia seguinte as 20:30 Hs, a cidade de Chaitén, apesar de ser a capital da Província de Palena X Região, tem apenas 3.500 habitantes e poucos lugares para visitar, sendo o mais interessante, uma exposição junto ao Centro de Informações do Parque Pumalin onde havia uma amostra de fotos mostrando a belezas e também as “atrocidades” que ocorreram nos bosques chilenos, como os pinheiros propositalmente queimados durante a exploração feita no passado por madeireiras americanas.

Enquanto esperava o tempo passar apreciando a vista no calçadão beira mar, surgiu um senhor e começou a conversar comigo, bastante simpático, contou-me de suas férias solitárias nessa “imensa cidade”. Nos despedimos, mais tarde no embarque voltei a encontrá-lo, ocasião em que me perguntou aonde Eu trabalhava em Santiago, pensei, meu espanhol está tão bom assim, que passei por chileno, quando percebi que ele estava usando um aparelho de surdez.

A viagem para Puerto Montt foi ótima, acompanhado de uma tal de “Carmen Margaux” (Cabernet Sauvignon) que tornou a viagem mais agradável. A chegada a P. Montt contemplando o nascer do sol sobre as cordilheiras, tendo também como fundo o Vulcão Osorno, lamentei não estar com uma máquina fotográfica com zoom.

Desembarcando, segui diretamente para o Colégio Salesiano onde peguei a embalagem da bicicleta, partindo em seguida para fazer um Tour ao lado oposto que conhecemos em nossa primeira estada, o dia estava maravilhoso, quente inclusive. Visitei

marinas com centenas de veleiros e a Universidade Austral .

Apesar de não me considerar um “urbanoide”, a cidade estava ficando pequena para aguardar até as 22:30 Hs, quando embarcaria para Santiago, não resisti e fui conhecer o Shoping, espetacular, além de ótimas lojas, sua praça de alimentação tem uma vista para o mar deslumbrante. Em uma loja de material esportivo encontrei uma barraca que teria sido ótima para viagem, apenas 850g, a minha apenas poucos centímetros maior pesa 1,7 Kg, nem perguntei o preço, afim de não me aborrecer.

Finalmente fui a um supermercado a fim de comprar algo para viagem de ônibus até Santiago, ou seja, vinho, porém como não é permitido beber álcool nesse, comprei também algumas garrafas de Ginger-Ale (garrafa pet escura), onde “mocosei” o vinho.

Chegando na Rodoviária consegui antecipar minha partida para 19:30 Hs, chegando em Santiago as 07:00 da manhã. Seguindo a recomendação do Rough Guide – Chile (Publifolha), diga-se de passagem, muito útil durante toda viagem, comecei a procurar o Hotel Paris (Paris nº 813), distante uns 3 Km da Rodoviária, onde depositei minha bicicleta e alforges, seguindo somente com uma pequena mochila. No caminho passei por uma rua bastante interessante, pois pela extensão de duas quadras, havia dezenas de lojas somente voltadas ao comércio de bicicletas e assessórios.

Como o mapa do guia não é muito detalhado, a temperatura já superava os 32°C, resolvi pegar um táxi, existem poucos hotéis no centro de Santiago, sabia que estava próximo, mas encontrei um ponto de táxi, quando expliquei o destino, o taxista simplesmente indicou-me o caminho, apenas uma quadra adiante encontrei o hotel, o chileno realmente é muito honesto.

Tal e qual descrito no Guia, o Hotel foi totalmente reformado, uma construção muito antiga e bonita, por apenas US$ 25,00, hospedei-me em um imenso e confortável quarto c/TV de 21¨, banheiro, porém sem desayuno.

Após descansar visitei diversas Galerias Comerciais onde comprei apenas alguns Cds e livros. Anoitecendo encontrei ao lado do hotel um simpático restaurante com o Menu fichado no lado de fora, em que mesmo antes de entrar já tinha escolhido o prato, restando somente consultar a Carta de Vinhos, logo na entrada um casal de americanos saia bastante aborrecido e reclamando, não entendi muito bem, sentei-me, quando uma família de suecos também reclamou, faltando somente eu, chegando o garçom fiz o pedido, imediatamente esse me explicou que se tratando de uma segunda-feira, não dispunham de frutos do mar, pois não funcionavam no fim de semana e trabalhavam somente com produtos frescos.

Já que lá estava, solicitei as opções, restando apenas a “mais sem graça” coxa de frango, queimada, sem sal e cara que provei, pagando a bagatela de US$ 25,00, o vinho estava bom, detalhe ½ garrafa de Undarraga Merlot.

A partida Santiago/Joinville seria às 10:30, as 08:15 parti em direção a Rodoviária, tinha bastante tempo, bastava seguir pela avenida principal da cidade (Libertador Bernardo O’ Higgins) e chegaria lá, porém quando me deparei com o Cerro Santa Lucia, comecei a desconfiar que havia algo errado, perguntei para um gari sobre a rodoviária, quando constatei que estava seguindo exatamente para o lado oposto, meia volta, apurei o passo e finalmente as 09:45 estava na Rodoviária, resultado tive que desembolsar uma diária extra pela custódia da bagagem, ao menos não necessitei recambiar p/dolares o saldo de pesos chilenos.

Partimos as 11:30 Hs, ônibus lotado, ainda mais velho que o que viemos do Brasil, saíram dois com o mesmo destino, logo na subida da Cordilheira o primeiro “ferveu”, nos seguimos em frente, após toda burocracia agora da aduana argentina, começamos a descida para Mendoza, a temperatura dentro do ônibus foi subindo, o ar-condicionado pifou, a sauna seguiu até Uruguaiana, atingindo 40°C, terrível, poucos reclamaram, os chilenos são muito educados mesmo, consultei um senhor ao lado (carioca) este me apoiou, resolvi tomar as providências, ao pararmos na aduana procurei o motorista e cobrei uma solução tão logo chegássemos ao Brasil, prometeu resolver, pois caso nada acontecesse, adverti-lo que a devolução do valor da passagem seria o mínimo que faríamos, pois nossas vidas estavam em risco dado ao calor, não havia nem água a bordo, também não era possível abrir as janelas, pois são fixas, restando somente as duas clarabóias no teto, que de pouco serviam.

Depois de 2 horas estávamos saindo da aduana, quando um policial brasileiro foi vistoriar o bagageiro, logo perguntou pelo dono da bicicleta, lá fui eu, perguntou-me sobre a nota fiscal, não tinha, argumentei que havia pedalado no Chile, muito rapidamente o motorista, o mesmo que eu havia ameaçado minutos antes, remendou, “você não viu na televisão? ele foi competir no Chile”, fiquei calado. Ao ver a bicicleta toda suja, o policial acabou acreditando, difícil seria explicar as duas garrafas com água de degelo e a tal água ferrosa!.

Seguimos para almoçar, eram 20:00 horas, a temperatura tinha baixado para 37ºC, fomos deixados em um restaurante na saída de Uruguaiana enquanto o ônibus seguiu para garagem da Pluma a fim de solucionar o problema, ficamos surpresos quando chegaram dois, sendo um novíssimo “Carro Leito”, finalmente seguimos viagem a 18ºC e tivemos que usar cobertores para dormir.

Finalmente as 15:30 cheguei em Joinville, onde remontei a bicicleta e pedalei para casa.

Em resumo, desnecessário repetir tudo que os demais companheiros já relataram, essa oportunidade foi realmente única e se fosse reclamar de algo, seria somente do único pneu que furou.

Valeu!!, Almiro, Gustavo, Nilson, Ricardo e Valdo.

 Fernando

 

Conclusão do Nilson

 

“Pedalando pela Carretera Austral”.

Foi uma viagem espetacular com muitas paisagens magníficas, diferentes das nossas paisagens brasileiras. Viajando de bicicleta temos a liberdade de fazer uma viagem totalmente maleável, observando cada detalhe durante o percurso.

Por ser uma viagem internacional, de um mês, o valor foi relativamente baixo.

O grupo conseguiu um grande entrosamento, apesar de não nos termos conhecido antes da viagem.

Esta viagem pode se feita por qualquer ciclo turista que tenha um pouco de disposição. Eu a recomendo.

Nilson

 

Conclusão do Almiro

 

VIVÊNCIAS NA PATAGÔNIA CHILENA

É difícil expressar a intensidade das emoções vividas neste mês de aventuras na Carretera Austral.
Éramos seis pessoas de idades, formação profissional e procedências diferentes, mas, a intensidade das vivências tidas em comum criou vínculos muito fortes entre as pessoas do grupo. Frio, ventos, chuvas, montanhas, estradas com muitas pedras soltas, enfim muitos obstáculos a serem vencidos.


Fizemos, muitas vezes, o tal "acampamento selvagem" à beira de rios que nasciam nas geladas montanhas próximas. Ficávamos muitas vezes sem banho, após um dia de pedalada.. Em certos momentos perguntava-me afinal o que estou fazendo aqui? Por que estou abdicando dos confortáveis passeios de automóvel com ar condicionado em rodovias de primeiríssima? Bastava, porém,olhar para os lados, apreciar as paisagens cuja beleza era a resposta.
Por mais sensível que seja uma máquina fotográfica, ela jamais vai conseguir expressar as paisagens em todas as suas belezas que você não pode dissociar da profunda "mexida" que te causa na alma.


Certo dia, tínhamos como objetivo chegar a El Amarillo, uma piscina de águas quentes de origem vulcânica. Há aproximadamente 20 km do objetivo começou um vento gelado com chuva. O vento assobiava nos obstáculos e fazia a chuva vir na horizontal. Os últimos 5 ou 6 km tivemos que empurrar as bicicletas morro acima. Chegamos cansados, molhados e com frio, tiramos apenas os calçados e capacetes e nos jogamos dentro da piscina quente, acabando de tirar a roupa, que era permitida tirar, dentro da piscina.


Ficamos lá dentro durante 3 horas, só saindo porque as 10 da noite ela encerra suas atividades. Enquanto estávamos dentro da água quente a cabeça recebia a chuva gelada, que não parava. Todas estas dificuldades são largamente compensadas pelas belezas naturais, um povo muito hospitaleiro e acolhedor e o vinho chileno que no frio se torna ainda muito mais gostoso.


Num possível próximo convite para participar de uma aventura dessas, não tenham a mínima dúvida, já está aceito.
Houve muita solidariedade entre todos os companheiros o que dava confiança de que nunca se estaria só em qualquer dificuldade. Não se pode deixar de registrar o bom planejamento de nosso líder e idealizador, Valdo, que também provou ser um bom animador não permitindo jamais que os ânimos se esmorecessem.
Uma aventura que marcou fundo em minha alma.

Almiro

 

Expedição Carretera Austral 27/12/2004 - 25/01/2005

 

O que levamos para a viagem

BICICLETA

  • Duas Bicicletas com 21 marchas, duas com 24 e duas com 27 marchas.

  • Três bicicletas com alforjes traseiros e dianteiros. Três só com os alforjes traseiros. O alforje dianteiro ajuda a equilibrar o peso nas subidas íngremes e nos ventos fortes.

  • Capas para os alforjes.

  • Uma bolsa de guidão.

  • Farol, tipo lanterna que servia também para o acampamento.

  • Luvas para evitar bolhas nas mãos.

  • Caramanholas. Quatro levaram duas cada um.  Um levou uma Camel Bag e uma caramanhola. Apenas um levou só uma caramanhola. Como havia muita água na estrada não teve grandes problemas. Uma só não é suficiente.

  • Todos tinham Ciclocomputador. É o instrumento de navegação do ciclista. Muito útil nas grandes distâncias. Alguns fizeram os ajustes do perímetro da roda, de acordo com o pneu, para ter uma medida exata da quilometragem, durante a viagem.

  • Bomba. cada um levou a sua.


FERRAMENTAS E PEÇAS DE REPOSIÇÃO

  • Ferramentas para montar e desmontar a bicicleta, chaves ale, alicate, chave de fenda, etc.

  • Câmaras de ar. Três em média.

  • Pneus,  um! alguns levaram dois.

  • Uma chave para cortar a corrente.

  • Pastilhas de freio. Foram trocados três pares durante a viagem.

  • Raios. Dois raios quebrados.

  • Chave de raios.

  • Óleo para corrente. O ideal é o lubrificante com teflon que repele a poeira.

  • Peças de reposição,  cabos de aço de freio e de marcha. Ninguém levou corrente extra.


MATERIAL PARA CAMPING

  • Barraca tipo iglu. Havia três modelos de barracas. A mais cara custou R$ 180,00 e a mais barata R$ 69,00. Todas se comportaram bem, embora entrasse muito vento gelado pela abertura durante a noite.

  • Plástico para forrar a barraca e um para cobri-la, em caso de chuva forte.

  • Saco de dormir que suporte 0 graus. Um dos nossos levou um saco impróprio e passou muito frio.

  • Isolante térmico.

  • Fogareiro. Todos a gás que é prático, barato e de fácil reposição dos botijões de gás. Seis no total.

  • Panela, garfo, faca, colher e caneca de plástico.

  • Canivete.

  • Corda para varal

  • Grampos para segurar a roupa no varal


ROUPA

  • 2 camisas de manga curta de ciclismo

  • 2 bermudas de ciclismo

  • 1 calça de ciclismo comprida. Alguns levaram pernitos. Não agradou porque escorrega durante a pedalada. Era preciso usar pregador para mantê-lo na posição. Demonstrou-se muito incômodo.

  • 1 camisa de manga comprida. Alguns levaram manguitos. Muito prático e quente e confortável.

  • 1 jaqueta de nylon (corta vento).

  • 1 blusa de lã

  • 1 par de luvas térmicas ou de lã

  • 1 gorro de lã

  • 1 calção de banho (não usado). A bermuda de ciclismo serviu para o banho.

  • Roupa exclusiva para dormir, para evitar dormir com roupa suada.

  • Capa de chuva. Nem todos tinham.

  • Sacos plásticos para ensacar as roupas.


COMIDA

  • Levamos uma boa quantidade de comida. Mais de 30 kg no total. Havia grande variedade. Cada um levou o que gostava e isto ajudou bastante. Sobraram apenas dois pacotes de miojo que ficou em Santiago. A rapadura fez sucesso. Pena que só havia duas de 400 g cada uma. A banana passa (10 kg) foi suficiente. Ninguém sofreu com câimbra. Entre outras coisas, levamos arroz, macarrão, vários tipos de sopão, barras de cereais, cereais matinais Grings, enlatados como salmão, atum e outros. O pão era comprado quase todos os dias. Para o café da manhã: café solúvel, leito em pó, chá de vários tipos, queijo, marmelada, patê de vários sabores, doce de leite (muito apreciado mesmo durante a viagem), biscoitos doces e salgados, frutas passas e fruta fresca sempre que a encontrávamos para comprar.

    Fazíamos duas refeições quente por dia, uma pela manhã e a outra à noite. Durante a pedalada comíamos de hora em hora para repor as energias. Algumas vezes fazíamos a refeição no restaurante. Na maior parte, porém cozinhávamos nós mesmo. Tínhamos excelentes cozinheiros no grupo.

OUTROS

  • Guia rodoviário da região.

  • Kit de primeiros socorros: gelol, remédio para dor de cabeça, diarréia, protetor solar, manteiga de cacau...